Micronovela Visual — Episódio III · Minnesota, 1922–2000
O Cachorro
que Nasceu
da Dor
Charles Schulz era tímido, rejeitado, melancólico e obcecado. A Disney o recusou. A mulher que amava recusou seu pedido de casamento. E ele transformou tudo isso num beagle que dorme no telhado e sonha com batalhas aéreas. O mundo inteiro riu. Schulz nunca parou de sofrer.

O Menino que Nasceu para Desenhar — e para Perder
Charles Monroe Schulz nasceu em 26 de novembro de 1922 em Minneapolis, Minnesota, filho único de um barbeiro alemão e de uma dona de casa norueguesa. Com dois dias de vida, já tinha um apelido: “Sparky”, dado por um tio que fazia referência ao cavalo Spark Plug de uma tirinha de jornal. Ele nunca se chamou Charles para as pessoas que importavam.
Schulz aprendeu a ler nas tiras de jornal. Tinha quatro anos quando seu pai lhe mostrou o suplemento dominical. Cresceu com a convicção absoluta — rara, quase assustadora — de que seria cartunista. Não queria ser outra coisa. Nunca vacilou nisso. O que vacilava era em tudo o mais.
Era tímido a ponto de paralisar. Introvertido. Socialmente desajeitado numa era em que os homens americanos deveriam ser confiantes e assertivos. Na escola, era invisível — não no sentido poético, mas no sentido prático e doloroso: seus desenhos foram recusados pelo anuário escolar. O garoto que sonhava em ser cartunista foi rejeitado pelo jornal da própria escola.
“Parece além da compreensão das pessoas que alguém possa ter nascido para desenhar tiras em quadrinhos. Mas acredito que eu nasci.”
— Charles M. SchulzEm 1943, dois eventos marcaram Schulz para sempre com uma distância de dias: sua mãe morreu de câncer aos 50 anos, e ele embarcou num trem para o Exército. Despediu-se do pai no pátio da estação e não conseguiu falar. Nunca superou completamente nenhuma das duas perdas.
Spike, o Cachorro Real.
Snoopy, o Cachorro Eterno.
Quando Schulz voltou da guerra — onde seu batalhão participou da libertação do campo de concentração de Dachau, uma experiência que ele raramente discutia — instalou-se com o pai num apartamento sobre a barbearia. Era um homem de 22 anos que havia visto coisas que não queria lembrar e tinha um sonho que não conseguia esquecer.
Snoopy nasceu de um cachorro real chamado Spike — um pointer preto e branco que Schulz teve na infância. Mas o nome “Snoopy” veio de sua mãe: ela havia sugerido que o próximo cachorro da família se chamasse Snoopy. A mãe morreu antes que isso acontecesse. Schulz usou o nome num personagem de papel.


As primeiras tiras de Snoopy, em 1950, o mostravam como um cachorro comum — de quatro patas, sem a arrogância característica que viria depois. A transformação aconteceu lentamente ao longo dos anos 1950 e explodiu na década de 1960: Snoopy foi ficando de pé, adquirindo um alter ego de piloto da Primeira Guerra Mundial, escrevendo romances na máquina de escrever, dormindo no telhado da casinha como se fosse uma suíte de hotel cinco estrelas.
Quanto mais Snoopy crescia em personalidade, mais Schulz podia fazer com a tira. O cachorro virou o veículo perfeito para o que Schulz nunca conseguia dizer diretamente: ironia, escapismo, grandiosidade cômica, e uma recusa elegante de aceitar a realidade como ela é.
O que Charlie Brown era de verdade
Schulz sempre negou ser Charlie Brown. Mas admitiu que Charlie Brown representava sua “hesitação e determinação”. Seu pai era barbeiro — igual ao pai de Charlie Brown. Era tímido, rejeitado, cheio de ansiedade. Quando seu pai o avisou para não “encher a cabeça” com sucesso, Schulz criou um personagem cuja característica mais marcante é uma cabeça enorme.
Não é coincidência. É terapia disfarçada de jornal dominical.
A Rejeição que Criou
um Personagem Imortal
Em 1947, trabalhando como instrutor na Art Instruction School em Minneapolis, Schulz conheceu Donna Mae Johnson — contadora do departamento financeiro, de cabelos ruivos. Namoraram três anos. Schulz se apaixonou da forma que só pessoas profundamente solitárias conseguem se apaixonar: totalmente, sem reservas, com uma intensidade que assustava até ele mesmo.
Em junho de 1950 — dias depois de assinar seu primeiro contrato com a United Feature Syndicate, o maior momento profissional de sua vida — Schulz pediu Donna em casamento. Ela recusou. Casou-se com outro homem.
“Para o resto de sua vida, Schulz posaria como o amante insatisfeito da garota de cabelos vermelhos — e seus amigos se sentiam mal pela esposa.”
— David Michaelis, biógrafo, Schulz and Peanuts (2007)A Garota de Cabelos Vermelhos entrou para Peanuts como o grande amor não correspondido de Charlie Brown — um personagem que nunca aparece em cena. Em 50 anos de tiras, nunca foi desenhada. Só existe como ausência, como uma promessa que nunca se cumpre. Charlie Brown a observa de longe. Nunca se aproxima. Nunca consegue falar com ela.
Schulz disse, décadas depois, olhando para uma foto de Donna Johnson: “Ainda penso nela.” Sua segunda esposa estava na sala ao lado.
Em 1951, Schulz casou-se com Joyce Halverson — irmã de uma mulher com quem havia saído, recém-divorciada, mãe de filhos. Na lua de mel, disse a ela: “Não acho que consigo ser feliz.”
Não era uma previsão. Era uma escolha.
“Penso em mim mesmo como