O Engenheiro que Não Sabia Ser Humano
Como a identidade profissional colonizou nossa psique — e por que estamos destruindo a política com os mesmos algoritmos que usamos para otimizar sprints.
A Falácia da Identidade Técnico-Profissional
Existe um momento preciso — invisível como a maré virando — em que alguém para de fazer engenharia e começa a ser engenheiro. O currículo deixa de ser uma folha de papel e passa a ser uma ontologia. A descrição de cargo se converte em filosofia de vida. E a partir daí, a lógica binária que resolve problemas de sistema começa a tentar resolver a bagunça irredutível de ser gente. Ou funciona ou não funciona. Ou está certo ou está errado. Ou é eficiente ou é desperdício.
Max Weber já descrevia, em 1905, o processo pelo qual o capitalismo industrial fabricou um novo tipo de ser humano: aquele que enxerga o trabalho não como meio de vida, mas como vocação sagrada. O que Weber chamou de “espírito do capitalismo” amadureceu, um século depois, numa forma mais sofisticada e mais perigosa: a identidade como produto. Não vendemos apenas nosso tempo — vendemos uma persona técnica, otimizada, mensurável. E quando vendemos por tempo suficiente, esquecemos que foi uma venda.
O problema não é trabalhar bem. O problema é quando “ser bom” se torna sinônimo de “ser útil”, e “ser útil” passa a ser a única forma legítima de existência. Nessa equação silenciosa, todo momento improdutivo vira culpa. Todo ócio vira vergonha. E toda conversa humana que não resolve um problema objetivo começa a parecer um desperdício de recursos computacionais — os seus.
A eficiência é uma virtude de máquinas. Quando a internalizamos como virtude moral, nos tornamos máquinas que acreditam ter alma.
— Byung-Chul Han, A Sociedade do Cansaço, 2010
Polarização como Otimização de Conflito
Quando o profissional técnico encontra o desacordo político, acontece algo previsível e devastador: ele trata o outro como um bug. Não como uma pessoa com uma história diferente, uma dor diferente, um conjunto diferente de experiências que produziram uma visão de mundo igualmente coerente por dentro. Não. O outro é um erro de sistema a ser corrigido, um obstáculo na rota de convergência para a solução ótima que ele, naturalmente, já encontrou.
A política — em sua forma genuína é lenta, humana — é o oposto de um framework. Ela existe precisamente porque não existe uma resposta certa. Existe a negociação permanente entre visões de mundo conflitantes, nenhuma delas completamente errada, nenhuma completamente certa. Mas para quem passou anos treinando o cérebro em arquiteturas de decisão, em fluxogramas, em metodologias ágeis de resolução de problemas, esse tipo de ambiguidade não parece uma característica do político — parece uma ineficiência a ser eliminada.
E assim, o debate se transforma em ticket de suporte. Quem discorda abre um bug report. A divergência vira defect. E a solução mais rápida, a que economiza mais ciclos de processamento emocional, é simplesmente fechar o ticket — cancelar, bloquear, excluir da base de dados. O código segue limpo. A câmara de eco, intacta.
O totalitarismo moderno não precisa de ditadores. Basta uma população que acredita ter encontrado o algoritmo correto para o bem comum — e que trata dissidentes como erros de compilação.
— Hannah Arendt, Origens do Totalitarismo, 1951

O Tribunal da Utilidade — Julgamento de Performance Moral
Chegamos então ao fenômeno mais bizarro da nossa era: o cancelamento por ineficiência ideológica. Não se cancela mais alguém porque ela é má pessoa. Cancela-se porque suas opiniões atrapalham o processo. Porque ela não está alinhada com os OKRs da causa. Porque seu posicionamento tem baixo ROI para a narrativa dominante do grupo. O julgamento moral virou um dashboard de métricas, e o veredicto é sempre binário: aprovado ou reprovado, aliado ou obstáculo.
Esse “Tribunal da Utilidade” não julga o caráter — ele mede a performance. E a performance, aqui, é definida por quão fielmente o indivíduo reflete os valores do grupo naquele exato momento do ciclo de sprint político. Ontem você era aliado. Hoje discordou de um ponto tático. Amanhã é inimigo. O repositório foi atualizado. Suas contribuições anteriores: revertidas.
Guy Debord havia previsto isso em 1967, ao descrever a Sociedade do Espetáculo: o espaço onde a aparência substitui o ser, onde o representado sufoca o real. A moralidade de painel de controle não pergunta quem você é — ela pergunta qual é o seu número. Qual é o seu score. Qual é o seu rate de consistência com a linha do partido — qualquer que seja o partido, de qualquer espectro, em qualquer rede social onde a performance moral é o produto que se vende.
Toda a vida das sociedades nas quais reinam as condições modernas de produção se apresenta como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo que era vivido diretamente tornou-se uma representação.
— Guy Debord, A Sociedade do Espetáculo, 19671906–1975
1931–1994
1959–

O Cansaço da Auto-Instrumentalização
Existe uma consequência psíquica devastadora para quem internalizou a identidade profissional como identidade total: o esgotamento não vem de trabalhar demais. Vem de existir demais como instrumento e de menos como pessoa. Byung-Chul Han chama isso de o sujeito de performance — aquele que não é explorado por um patrão externo, mas que se explora a si mesmo voluntária e entusiasticamente, convencido de que isso é liberdade.
E então algo ainda mais curioso acontece: quando esse sujeito fecha o computador, ele não sabe o que fazer com o silêncio. Não porque seja incapaz de descansar — mas porque, sem o trabalho, a pergunta “quem sou eu?” não tem mais resposta automática. O cargo era a resposta. O projeto era a identidade. O deadline era o horizonte de sentido. Sem eles, há apenas uma pessoa sem legenda, sem descrição de cargo, sem KPI — e isso, para quem se tornou sua própria planilha, é uma forma de morte simbólica.
A pergunta que ninguém te ensinou a fazer: e as outras 128? Quem você é quando não está sendo avaliado, quando nenhum resultado vai aparecer no relatório, quando a única testemunha do seu existir é você mesmo? A identidade profissional respondeu por você durante anos. Quando ela falhar — e ela vai falhar — o que sobra?


O Resgate do Humano Não-Útil
Há uma subversão necessária e urgente: reabilitar o inútil. Não a preguiça, não a irresponsabilidade, não o escapismo — mas o contemplativo, o gratuito, o sem-propósito. A criança que desenha sem querer virar artista. O adulto que caminha sem registrar os passos num aplicativo. A conversa que não tem agenda, não tem output, não tem ata de reunião. Essas coisas não são o que sobra depois que a vida acontece — elas são a vida acontecendo.
A política — e aqui chegamos ao ponto de convergência — deveria ser pensada como extensão desse espaço humano, não como sua negação. A política que serve à vida é lenta, contraditória, frustrante e necessária. Ela exige que suportemos a presença do outro em sua irredutível diferença, sem transformá-lo em erro de sistema. Ela exige que abandonemos o sonho do algoritmo perfeito e aceitemos que governar é sempre uma composição imperfeita entre interesses legítimos que não convergem.
Desacoplar cargo de caráter é talvez o exercício mais difícil da nossa geração. Não porque somos fracos — mas porque fomos sistematicamente treinados para nos confundir com nossas funções. O que você produz não é o que você vale. O que você entrega não é quem você é. E quem você é, nessa lacuna silenciosa entre o computador que fecha e o sono que não vem, ainda está esperando para ser descoberto — não otimizado, não escalado, não transformado em caso de sucesso. Apenas encontrado.
Não me diga o que você produz. Me diga o que você ama quando ninguém está medindo.
— Adaptação de Rilke, Cartas a um Jovem Poeta, 1903