Nise da Silveira: a médica brasileira que destruiu o manicômio por dentro

Saúde Mental · Resistência · Brasil · 1905–1999

Nise
da Silveira

A médica que devolveu a humanidade aos que o mundo havia esquecido

I
Capítulo I — A Menina de Fernão Velho

Nascida à beira do
rio da revolta

Em 27 de fevereiro de 1905, no pequeno distrito de Fernão Velho, nos arredores de Maceió, Alagoas, veio ao mundo uma criança que o século não estava preparado para receber. Nise da Silveira cresceu entre as margens do Rio Mundaú e as histórias de Machado de Assis, lidos em voz alta por um pai que acreditava que uma filha merecia os mesmos livros que um filho. Naquele tempo, isso já era um ato subversivo.

Aos dezessete anos, Nise era a única mulher entre 158 homens na Faculdade de Medicina da Bahia. Não havia banheiro feminino no edifício. Não havia protocolo para sua presença. Havia apenas ela, os cadáveres de anatomia e uma determinação que desconcertava professores e colegas por igual. Em 1926, formou-se com distinção — mais uma anomalia que o mundo simplesmente não sabia onde colocar.

“Nunca aceitei fazer o que me mandavam quando mandavam errado.”

— Nise da Silveira, em entrevista à Rádio MEC, 1994
Retrato de Nise da Silveira, psiquiatra brasileira
Nise da Silveira — A psiquiatra alagoana que transformou o tratamento da loucura no Brasil. Acervo Instituto Municipal Nise da Silveira. [1]
II
Capítulo II — O Hospício e a Recusa

Onde os outros assinavam,
ela recusava a caneta

Em 1936, Nise foi presa. A acusação era ter livros comunistas em casa e uma foto de Lenin na parede — o suficiente para que o Estado Novo de Getúlio Vargas a encarasse como inimiga. Ficou oito meses detida. Quando saiu, não estava quebrada: estava com mais razões para lutar. Anos depois, ingressou no Centro Psiquiátrico Nacional do Rio de Janeiro — hoje Instituto Municipal Nise da Silveira — e se deparou com um mundo que a horrorizou até os ossos.

Os corredores cheiravam a urina e medo. Pacientes eram amarrados, isolados em celas, submetidos a eletrochoques e lobotomias com a mesma naturalidade com que se administrava um comprimido para dor de cabeça. Quando a chefia pediu que ela assinasse as ordens para esses procedimentos, Nise recusou. Não por desobediência — mas porque sabia, com a clareza de quem estudou Espinosa e Jung, que terror não é cura. Foi rebaixada ao setor de ocupações. Ela transformou o castigo em revolução.

1952

Fundação do Museu de Imagens do Inconsciente

+75mil

Obras produzidas por pacientes sob sua supervisão

94 anos

Uma vida inteira dedicada à dignidade dos invisíveis

Pinturas de Emygdio de Barros, paciente de Nise da Silveira
Obras de Emygdio de Barros, paciente que se tornou artista reconhecido internacionalmente [2]
Pintura de Carlos Pertuis, artista e paciente do ateliê de Nise da Silveira
Carlos Pertuis — uma das vozes visuais emergidas do ateliê de expressão livre [3]
III
Capítulo III — O Ateliê e Carl Gustav Jung

Tintas onde havia
apenas grades

O ateliê aberto em 1946 não tinha nome grandioso. Tinha pincéis, telas, tintas e uma médica que sentava no chão ao lado dos pacientes e olhava as telas como quem ouve uma confissão. Nise acreditava, com Jung e contra Freud, que as imagens do inconsciente podiam ser portas — não sintomas a suprimir, mas linguagens a decifrar. Cada tela pintada por um paciente era, para ela, um gesto de existência num lugar onde a existência havia sido confiscada.

A correspondência com o próprio Carl Gustav Jung começou quando Nise enviou fotografias das pinturas dos pacientes para Zurique. Jung respondeu com admiração genuína — e voltou a responder. O diálogo entre a psiquiatra alagoana e o mestre suíço durou anos, e Jung declarou que o material produzido no Rio de Janeiro era dos mais ricos que havia visto em sua pesquisa sobre imagens do inconsciente coletivo. Em 1952, Nise fundou o Museu de Imagens do Inconsciente, preservando um acervo que nenhum outro país havia tido a sensatez de criar.

Os gatos também eram parte da terapia — animais que circulavam livremente pelas enfermarias como pontes entre o mundo interno e o externo. Nise chamava isso de terapia do vínculo. A ciência levaria décadas para alcançar o que ela já praticava: que o afeto cura onde o eletrodo apenas apaga.

“O louco não é um ser à parte, que vive num mundo inacessível. É um ser humano que mergulhou fundo demais.”

— Nise da Silveira, em “Imagens do Inconsciente”, 1981
Galeria — Vozes do Ateliê

Três artistas que
o mundo quase não viu

Do ateliê de Nise emergiram criadores que hoje integram coleções de museus nacionais e internacionais — pacientes que a psiquiatria de então havia decretado irrecuperáveis.

Emygdio de Barros, artista e paciente

Emygdio de Barros
1895–1984

Arthur Bispo do Rosário, artista outsider brasileiro

Arthur Bispo do Rosário
1909–1989

Museu de Imagens do Inconsciente, Rio de Janeiro

Museu de Imagens
do Inconsciente

Marcha da luta antimanicomial, manifestantes nas ruas
Marcha Antimanicomial — A luta pelos direitos das pessoas com transtornos mentais tomou as ruas do Brasil após décadas de resistência. [4]
IV
Capítulo IV — A Reforma Psiquiátrica

Como se destrói
um manicômio por dentro

A Reforma Psiquiátrica brasileira não nasceu de decreto — nasceu de décadas de resistência que Nise ajudou a semear. O Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental (MTSM), criado em 1978, bebeu diretamente da fonte que ela abriu. Em 1989, a cidade de Bauru, SP, sediou o primeiro grande congresso do movimento, cujo lema era claro como uma guilhotina: “Por uma sociedade sem manicômios.” O caminho do discurso à lei levou mais doze anos — mas chegou.

01

A Recusa Inicial (1944)

Nise se nega a aplicar eletrochoque e lobotomia nos pacientes do Centro Psiquiátrico Nacional. É punida com a transferência para o setor de terapia ocupacional — que ela transformará no núcleo de sua revolução.

02

O Ateliê de Expressão (1946)

Inaugura a Seção de Terapia Ocupacional com atividades livres de pintura, modelagem e encadernação. Pela primeira vez, pacientes não eram tratados como objetos de intervenção, mas como sujeitos com voz própria.

03

O Museu e Jung (1952)

Funda o Museu de Imagens do Inconsciente para preservar o acervo dos pacientes. Inicia correspondência com Carl Gustav Jung, que reconhece o valor excepcional do material produzido pelos internos como evidência da teoria dos arquétipos.

04

O Movimento Antimanicomial (1978–1989)

A semente plantada por Nise germina no Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental. O 2.º Congresso Nacional do MTSM em Bauru (1987) produz a Carta de Bauru, marco fundador da Luta Antimanicomial. O dia 18 de maio passa a ser o Dia Nacional da Luta Antimanicomial.

05

A Lei da Reforma Psiquiátrica (2001)

A Lei 10.216/2001, conhecida como Lei Paulo Delgado, redireciona o modelo assistencial em saúde mental no Brasil. Prioriza o tratamento em serviços comunitários (CAPS), redireciona recursos dos hospitais psiquiátricos e protege os direitos das pessoas com transtornos mentais.

A Lei que Nise não viveu para ver promulgada

A Lei 10.216/2001 foi sancionada dois anos após a morte de Nise da Silveira, em 1999. Mas o espírito que a animou — o princípio de que pessoas com sofrimento psíquico têm dignidade, direitos e devem ser tratadas no convívio social, não aprisionadas — era exatamente o que ela praticou durante cinquenta anos, antes de qualquer lei existir para protegê-la.

Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), serviço substitutivo ao manicômio
CAPS — Centros de Atenção Psicossocial, modelo que substituiu o manicômio como referência [5]
Fachada do Museu de Imagens do Inconsciente, Rio de Janeiro
Museu de Imagens do Inconsciente — o acervo que Nise recusou deixar dispersar [6]
V
Capítulo V — Morte, Legado e a Pergunta que Ficou

O que resta quando
a doutora vai embora

Nise da Silveira morreu em 30 de outubro de 1999, no Rio de Janeiro, aos 94 anos. Morreu sem saber que dois anos depois o Brasil aprovaria a lei que ela havia pedido com o corpo inteiro durante meio século. Morreu tendo visto o acervo do Museu de Imagens do Inconsciente crescer para mais de 75 mil obras — pinturas, desenhos, esculturas produzidas por pessoas às quais o mundo havia dito que não tinham mais nada a oferecer.

O legado de Nise é múltiplo e incômodo. É científico: ela demonstrou, décadas antes que a neurociência confirmasse, que vínculos afetivos, expressão criativa e pertencimento social são componentes terapêuticos reais. É político: ela deixou claro que o manicômio não era apenas ineficaz — era uma forma de violência sancionada pelo Estado. E é filosófico: ela insistiu que a loucura não é a ausência de sentido, mas um sentido que ainda não foi traduzido.

Em 2015, o filme Nise — O Coração da Loucura, dirigido por Roberto Berliner com Glória Pires no papel principal, levou sua história a um público que nunca havia ouvido seu nome. É uma ironia gentil: a mulher que deu voz aos silenciados precisou de uma atriz famosa para finalmente ser ouvida. Mas Nise provavelmente teria sorrido com isso — ela entendia de sobra as estranhas rotas que a humanidade precisa percorrer para reconhecer sua própria gente.

“A diferença entre o normal e o louco é apenas uma questão de grau. Todos nós temos um inconsciente que fala — a maioria simplesmente aprendeu a não escutá-lo.”

— Nise da Silveira, em “O Mundo das Imagens”, 1992
✦ ✦ ✦

Uma menina de Alagoas que recusou assinar o nome onde não havia dignidade.
Um ateliê com pincéis onde deveria haver grades — e havia, mas ela ignorou.
Um museu de imagens que prova que o inconsciente tem mais a dizer do que a razão admite.

Por uma Sociedade sem Manicômios

Fontes, Referências e Créditos

Referências
e créditos de imagem

As imagens desta reportagem são de domínio público ou licenciadas sob Creative Commons via Wikimedia Commons, com fallbacks via Unsplash. O conteúdo histórico é baseado em fontes acadêmicas, documentários e registros oficiais sobre a vida de Nise da Silveira e a Reforma Psiquiátrica brasileira.

  • Instituto Municipal Nise da Silveira — Rio de Janeirorio.rj.gov.br
  • Museu de Imagens do Inconsciente — Acervo e históriamuseudeimagensdoinconsciente.org.br
  • Silveira, Nise da. Imagens do Inconsciente. Francisco Alves, 1981 — referência bibliográfica primária; obra disponível em bibliotecas públicas brasileiras
  • Wikipedia — Nise da Silveirapt.wikipedia.org
  • Ministério da Saúde — Reforma Psiquiátrica e Lei 10.216/2001gov.br/saude
  • Berliner, Roberto (dir.). Nise — O Coração da Loucura. 2015 — Filme biográfico disponível em plataformas de streaming nacionais