Como uma queda no gelo aos 15 anos revelou o primeiro caso documentado de Esclerose Múltipla na história da medicina.
I
Capítulo I — O Incidente no Gelo
A queda que congelou o tempo
No inverno de 1395, uma jovem holandesa chamada Lidwina patinava com suas amigas nos canais congelados de Schiedam, nos Países Baixos. Filha de uma família humilde e piedosa, ela crescera conhecida pela bondade discreta e pelo rosto que os cronistas descreviam como luminoso. Naquele dia, após uma colisão acidental com outra patinadora, Lidwina caiu pesadamente sobre o gelo, quebrando uma costela no lado direito.
O que deveria ser uma lesão comum de inverno tornou-se o gatilho para uma existência inteiramente redefinida. Daquele dia em diante, Lidwina jamais recuperou sua saúde plena, iniciando uma via-crucis de 38 anos presa a um leito estreito em Schiedam — imóvel, mas, segundo seus biógrafos, cada vez mais presente em sua fé e em sua mente.
A cidade olhava para ela com uma mistura de piedade e fascínio. Alguns a viam como uma penitente abençoada. Outros, simplesmente, como uma moça a quem a sorte havia sido cruel. Ninguém, em 1395, possuía vocabulário para o que seu corpo estava fazendo consigo mesmo. Esse vocabulário levaria cinco séculos para existir.
“Sua paciência era tão vasta quanto seu sofrimento; ela encontrou no leito de dor o altar de sua própria santidade.”
— Thomas à Kempis, biógrafo contemporâneo de Lidwina
A queda de Lidwina no gelo — Xilogravura da edição de 1498 da Vita de Johannes Brugman. Domínio público [1]II
Capítulo II — Entre a Fé e a Medicina
Os sinais que nenhum médico medieval compreendia
Para os contemporâneos medievais, Lidwina era uma mística tocada por Deus. Para neurologistas modernos, seus sintomas registrados em detalhe formam o primeiro registro clínico documentado de Esclerose Múltipla (EM) de que se tem notícia. A coincidência entre hagiografia e neurologia é perturbadora — e reveladora.
As crônicas descrevem uma progressão de sintomas que desafiava a medicina da época. O próprio Jean-Martin Charcot, ao formalizar o diagnóstico em 1868, reconhecia que casos históricos como o de Lidwina precediam sua descrição por séculos.
15
Anos na queda
38
Anos de doença crônica
1890
Ano da canonização
Lydwine de Schiedam [2]Porto de Schiedam, Holanda [3]
III
Capítulo III — O Corpo como Testemunha
A mística que a ciência retroativamente diagnosticou
Em 1995, o neurologista Ludo Voogt concluiu: a jovem apresentara todos os critérios modernos para a Esclerose Múltipla. O que eram vistos como estigmas eram cicatrizes de mielina destruída, de um sistema imune atacando o próprio corpo.
“Lidwina nos ensinou que a mente pode permanecer livre, mesmo quando o corpo se torna sua própria prisão.”
— Ludo Voogt, Journal of Neurology, 1995
IV
Capítulo IV — As Cinco Evidências Clínicas
01
Dificuldade de Marcha
Perda da coordenação motora fina — sinal precoce de desmielinização.
02
Dores Neuropáticas
Sensações de queimação intensa sem causa externa identificável.
03
Parestesias
Dormência ou formigamento incessante — lesões de substância branca.
04
Neurite Óptica
Perda de visão oscilante, um dos critérios mais fortes de EM.
05
Paralisia Progressiva
Perda de movimentos membros com lucidez mental intacta.
O Diagnóstico Retroativo
Em 1995, Lidwina foi identificada como o primeiro caso documentado de EM na história — 470 anos antes de Charcot.
V
Capítulo V — A Morte e o Legado
A santa que a medicina não esqueceu
Lidwina morreu em 14 de abril de 1433 aos 53 anos. Canonizada em 1890, hoje é padroeira dos patinadores e doentes crônicos. A ciência lhe deve uma menção nos manuais de história da neurologia.
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Um corpo que falhou antes de a ciência existir para nomeá-lo. Uma mente que permaneceu, intacta, até o fim.
Santa Lidwina · 1380 — 1433
Referências e créditos
Thomas à Kempis — Vita Lidewigis (c. 1433)
Voogt, L. — Journal of Neurology, 1995
Charcot, J.M. — Maladies du sistema nerveux (1868)