Santa Lidwina: O Primeiro Caso de Esclerose Múltipla da História?

Santa Lidwina

Schiedam, Holanda — 1380 · 1433

Santa Lidwina
A Patrona da Dor Invisível

 

Como uma queda no gelo aos 15 anos revelou o primeiro caso documentado de Esclerose Múltipla na história da medicina.

I
 
Capítulo I — O Incidente no Gelo
 

A queda que
congelou o tempo

No inverno de 1395, uma jovem holandesa chamada Lidwina patinava com suas amigas nos canais congelados de Schiedam, nos Países Baixos. Filha de uma família humilde e piedosa, ela crescera conhecida pela bondade discreta e pelo rosto que os cronistas descreviam como luminoso. Naquele dia, após uma colisão acidental com outra patinadora, Lidwina caiu pesadamente sobre o gelo, quebrando uma costela no lado direito.

O que deveria ser uma lesão comum de inverno tornou-se o gatilho para uma existência inteiramente redefinida. Daquele dia em diante, Lidwina jamais recuperou sua saúde plena, iniciando uma via-crucis de 38 anos presa a um leito estreito em Schiedam — imóvel, mas, segundo seus biógrafos, cada vez mais presente em sua fé e em sua mente.

A cidade olhava para ela com uma mistura de piedade e fascínio. Alguns a viam como uma penitente abençoada. Outros, simplesmente, como uma moça a quem a sorte havia sido cruel. Ninguém, em 1395, possuía vocabulário para o que seu corpo estava fazendo consigo mesmo. Esse vocabulário levaria cinco séculos para existir.

“Sua paciência era tão vasta quanto seu sofrimento; ela encontrou no leito de dor o altar de sua própria santidade.”

— Thomas à Kempis, biógrafo contemporâneo de Lidwina
Xilogravura da queda
A queda de Lidwina no gelo — Xilogravura da edição de 1498 da Vita de Johannes Brugman. Domínio público [1]
II
 
Capítulo II — Entre a Fé e a Medicina
 

Os sinais que nenhum
médico medieval compreendia

Para os contemporâneos medievais, Lidwina era uma mística tocada por Deus. Para neurologistas modernos, seus sintomas registrados em detalhe formam o primeiro registro clínico documentado de Esclerose Múltipla (EM) de que se tem notícia. A coincidência entre hagiografia e neurologia é perturbadora — e reveladora.

As crônicas descrevem uma progressão de sintomas que desafiava a medicina da época. O próprio Jean-Martin Charcot, ao formalizar o diagnóstico em 1868, reconhecia que casos históricos como o de Lidwina precediam sua descrição por séculos.

15

Anos na queda

38

Anos de doença crônica

1890

Ano da canonização

Lydwine de Schiedam [2]
Porto de Schiedam, Holanda [3]
III
 
Capítulo III — O Corpo como Testemunha
 

A mística que a ciência
retroativamente diagnosticou

Em 1995, o neurologista Ludo Voogt concluiu: a jovem apresentara todos os critérios modernos para a Esclerose Múltipla. O que eram vistos como estigmas eram cicatrizes de mielina destruída, de um sistema imune atacando o próprio corpo.

“Lidwina nos ensinou que a mente pode permanecer livre, mesmo quando o corpo se torna sua própria prisão.”

— Ludo Voogt, Journal of Neurology, 1995
IV
 
Capítulo IV — As Cinco Evidências Clínicas
 
01

Dificuldade de Marcha

Perda da coordenação motora fina — sinal precoce de desmielinização.

02

Dores Neuropáticas

Sensações de queimação intensa sem causa externa identificável.

03

Parestesias

Dormência ou formigamento incessante — lesões de substância branca.

04

Neurite Óptica

Perda de visão oscilante, um dos critérios mais fortes de EM.

05

Paralisia Progressiva

Perda de movimentos membros com lucidez mental intacta.

O Diagnóstico Retroativo

Em 1995, Lidwina foi identificada como o primeiro caso documentado de EM na história — 470 anos antes de Charcot.

V
 
Capítulo V — A Morte e o Legado
 

A santa que a medicina
não esqueceu

Lidwina morreu em 14 de abril de 1433 aos 53 anos. Canonizada em 1890, hoje é padroeira dos patinadores e doentes crônicos. A ciência lhe deve uma menção nos manuais de história da neurologia.

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Um corpo que falhou antes de a ciência existir para nomeá-lo.
Uma mente que permaneceu, intacta, até o fim.

Santa Lidwina · 1380 — 1433

Referências
e créditos

  • Thomas à Kempis — Vita Lidewigis (c. 1433)
  • Voogt, L. — Journal of Neurology, 1995
  • Charcot, J.M. — Maladies du sistema nerveux (1868)