
Micronovela Visual — Episódio I
Destino:
O Sonho que
Duas Lendas
Destruíram
Como Walt Disney e Salvador Dalí criaram juntos a obra mais estranha da história da animação — e como o dinheiro, o ego e a guerra fria a enterraram viva por 58 anos.
Walt Disney · Salvador Dalí · 1945 – 2003
Quando o Rato Conheceu o Bigode
Em 1945, Hollywood cheirava a dinheiro fácil e traumas de guerra disfarçados de entretenimento. Walt Disney estava falido — sim, o homem que criou Mickey Mouse devia fortunas. A Segunda Guerra havia transformado os estúdios dele em fábrica de propaganda militar. Sem glamour. Sem dinheiro. Com muito orgulho ferido.
Foi nesse estado de desespero criativo que Walt ouviu falar de um espanhol excêntrico que dormia com uma colher na mão para capturar os sonhos do momento exato em que adormecia. Um homem que pintava relógios derretendo sobre cadáveres, que chamava a paranoia de "método", que tinha um bigode tão absurdo que deveria ser ilegal.
"Só há dois homens no mundo vestidos de forma extravagante: eu e Mickey Mouse."
— Salvador Dalí, ao conhecer Walt DisneyWalt riu. Provavelmente pela última vez de graça nessa história.
Os dois se encontraram em dezembro de 1945. Disney queria um curta experimental. Dalí queria Hollywood. Ambos queriam a imortalidade. Nenhum dos dois sabia o que estava prestes a criar — ou a destruir.
Destino: Uma Alucinação com Orçamento
O projeto se chamava simplesmente Destino. Baseado numa canção mexicana de 1944, deveria ser um curta de 6 minutos onde uma bailarina atravessava paisagens de pura loucura surrealista. Dalí desenhou mais de 135 storyboards. Os animadores da Disney passaram meses tentando entender como animar cronômetros com ossos, ciclistas que se tornavam tartarugas e beijos que se transformavam em pirâmides.
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A colaboração era um choque de planetas. Dalí chegava aos estúdios às 10h da manhã carregando uma tartaruga de verdade como "referência visual". Os animadores da Disney — treinados para fazer patos falarem e veados chorarem — ficavam paralisados diante dos esboços que misturavam anatomia humana com arquitetura e formigas.
"Dalí não fazia arte para ser entendida. Fazia arte para ser sentida na espinha. Walt queria que as crianças entendessem. Era um conflito de religiões."
— Animador da Disney (arquivo oral, 1980s)Mas funcionou. Por oito meses, funcionou.
O que eles queriam provar
Disney queria provar que animação era arte. Arte de verdade. Não entretenimento para crianças, não propaganda de guerra — mas uma forma legítima de expressão capaz de dialogar com os maiores gênios do século XX.
Dalí queria provar que o surrealismo podia escalar. Que seus pesadelos não ficavam trancados em telas de museu — podiam se mover, respirar, invadir as salas de cinema do mundo inteiro.
Ambos estavam certos. E o mundo não estava pronto para isso.
O Dinheiro Vence os Sonhos Sempre
Em 1946, Walt Disney fez as contas. A guerra havia acabado mas a dívida não. Os estúdios estavam no vermelho. O sindicato de animadores havia feito greve. E Destino era, comercialmente falando, um suicídio.
Ninguém iria pagar ingresso para ver uma bailarina virar estátua enquanto um beisebolista jogava globos oculares numa partida que se passava numa planície de ossos. Isso não era Cinderela. Isso não era Bambi. Isso era um pesadelo espanhol embrulhado em Technicolor.
Walt tomou a decisão. Engavetou o projeto.
Dalí ficou furioso. Escreveu cartas. Ameaçou. Depois voltou para a Europa e pintou relógios derretendo com mais raiva do que nunca.
"Disney é o mais importante definidor do surrealismo nos Estados Unidos."
— Dalí, anos depois — ainda tentando fazer as pazes com o destinoOs 17 segundos de animação já concluídos foram trancados num cofre dos estúdios Disney. Junto com os 135 storyboards originais de Dalí. Junto com a banda sonora. Junto com a prova de que dois gênios egocêntricos podem criar algo genuinamente extraordinário — e que o mundo vai engavetar assim mesmo.
58 Anos Depois: O Cofre Abre
Em 2003, o sobrinho-neto de Walt Disney, Roy E. Disney, encontrou os arquivos. Contratou uma equipe de animadores franceses. Usou os storyboards de Dalí como bíblia. Completou o curta usando tecnologia digital que em 1946 seria considerada bruxaria.
Destino estreou no Festival de Annecy em 2003. Recebeu uma ovação. Foi indicado ao Oscar de Melhor Curta de Animação em 2004. Dalí havia morrido em 1989. Walt havia morrido em 1966. Nenhum dos dois viu o filho que criaram juntos dar seus primeiros passos diante de uma plateia.
Existe uma ironia cruel aqui. A obra que Walt considerou comercialmente inviável em 1946 é hoje estudada em escolas de design, animação e arte ao redor do mundo. Os storyboards originais de Dalí valem fortunas. E Destino está no YouTube — gratuito, para qualquer pessoa que queira ver o que acontece quando dois gênios absolutamente intratáveis decidem colaborar.
"O que a arte teme não é a obscuridade.
É o cofre."
Walt Disney engavetou o projeto por medo do mercado. Dalí passou o resto da vida fazendo piadas sobre isso. E nós, décadas depois, ainda discutimos sobre o que teria sido — se tivesse chegado aos cinemas em 1946.
Toda época tem sua versão de um Destino no cofre. Pergunta-se: qual o seu?
Epílogo · O que ficou
Dalí manteve uma litografia autografada de Mickey Mouse no ateliê de Cadaqués até o dia da sua morte. Walt manteve um esboço de Dalí — uma figura feminina dissolvendo-se em formigas — emoldurado no escritório de Burbank.
Eles nunca fizeram as pazes formalmente. Mas o rato nunca saiu do quarto do pintor. E as formigas nunca saíram do escritório do animador.
Isso é o que a arte faz quando resiste ao cofre.
Fim · Episódio I — Disney & Dalí


