A Dívida que Ninguém Declarou — Software, Educação e Futuro
A Dívida que Ninguém Declarou
Software, sociedade e o preço invisível de construir rápido demais sobre fundações que ninguém ensinou a questionar.
Em 1992, Ward Cunningham comparou código mal escrito a uma dívida financeira. Não imaginava que a analogia descreveria o mundo inteiro.
O Programador que Nomeou o Invisível
Em 1992, num escritório comum de Portland, Oregon, um programador chamado Ward Cunningham estava com um problema que não era de código. Ele precisava convencer seu chefe — um homem de finanças — de que o time deveria parar de adicionar funcionalidades novas e voltar atrás para reescrever partes do sistema que já funcionavam, mas mal. O software rodava. Fazia o que prometia. Mas por dentro era um emaranhado de decisões apressadas, atalhos tomados sob pressão de prazo, e soluções temporárias que ninguém nunca voltou para consertar.
Cunningham, que era leitor de filosofia e linguística antes de ser engenheiro, tinha acabado de ler Metaphors We Live By, de George Lakoff e Mark Johnson — um livro que argumentava que as metáforas não são enfeites da linguagem, mas estruturas do pensamento. Nós não apenas dizemos que “tempo é dinheiro”; nós pensamos e agimos como se tempo fosse dinheiro. A metáfora não descreve a realidade — ela a constrói.
Então Cunningham fez algo que mudaria o vocabulário de toda uma indústria: ele olhou para o código acumulado e disse ao seu chefe — um homem de finanças, lembre-se — que aquilo era uma dívida técnica. Que cada atalho tomado era como pegar dinheiro emprestado: acelerava o presente, mas gerava juros. E que os juros estavam compostos. Cada nova funcionalidade adicionada sobre uma base frágil custava mais tempo, mais erros, mais dor de cabeça. Se não pagassem a dívida agora, eventualmente os juros consumiriam toda a capacidade produtiva do time.
Enviar código que não está completamente correto é como contrair uma dívida. Um pouco de dívida acelera o desenvolvimento — desde que seja paga prontamente com uma reescrita.
— Ward Cunningham, Experience Report, OOPSLA, 1992O chefe entendeu. A metáfora funcionou. E depois funcionou para milhares de outros times, em milhares de outras empresas, por mais de três décadas. Hoje, em 2025, uma análise da CAST sobre mais de dez bilhões de linhas de código estima que a dívida técnica global soma 61 bilhões de dias úteis de trabalho de reparo. Sessenta e um bilhões. Se todos os 25 milhões de desenvolvedores do mundo trabalhassem exclusivamente nisso, levariam nove anos para quitar.
Mas eu não quero falar só de software. Quero falar de nós.
Porque a metáfora de Cunningham, como toda boa metáfora — Lakoff e Johnson ficariam orgulhosos — não é apenas sobre código. Ela descreve com precisão inquietante o que acontece quando qualquer sistema complexo — seja um programa, uma empresa, uma escola ou uma sociedade inteira — prioriza a velocidade de entrega sobre a qualidade da fundação. Quando escolhemos o atalho em vez do caminho certo. Quando dizemos “resolve agora, conserta depois” e o depois nunca chega.
45% do código global é considerado frágil — suscetível a falhas sob condições inesperadas.
Desenvolvedores gastam 42% da semana lidando com dívida técnica e código problemático.
A Sociedade como Sistema Legado
Existe uma tentação perigosa quando se descobre uma metáfora boa demais: aplicá-la a tudo. Eu sei disso. Mas peço licença para resistir à cautela por um momento, porque o que eu vejo quando olho para a educação brasileira — e, francamente, para a educação de boa parte do mundo — se parece demais com um sistema legado para eu conseguir ignorar.
Um sistema legado, em software, é aquele que ainda funciona, mas cuja arquitetura original não foi pensada para o que se exige dele hoje. Ele roda. Entrega resultados. Passa nos testes básicos. Mas por dentro é rígido, lento para mudar, caro para manter e hostil à inovação. Ninguém ousa reescrevê-lo do zero porque a operação inteira depende dele — e ninguém entende direito como ele funciona por completo. Então se vão empilhando remendos sobre remendos, e a cada remendo o sistema fica mais frágil, mais opaco, mais distante do que ele precisaria ser.
Agora me diga se isso não descreve uma escola.
A estrutura básica da educação formal que praticamos hoje — turmas divididas por idade, disciplinas isoladas em horários fixos, avaliação por memorização, professor como transmissor central — foi desenhada no século XIX para atender às necessidades da Revolução Industrial. Precisávamos de operários disciplinados, pontuais, capazes de seguir instruções. O sistema entregou isso com eficiência notável. E nós nunca o reescrevemos. Fomos empilhando patches: salas de informática nos anos 90, lousas digitais nos 2000, tablets nos 2010, ensino remoto emergencial em 2020. Cada patch resolveu um sintoma sem tocar na arquitetura.
Não para o lucro: a democracia precisa das humanidades porque elas ensinam o pensamento crítico, a empatia e a imaginação — capacidades que nenhuma prova padronizada mede, mas que sustentam a cidadania.
— Martha Nussbaum, Not for Profit: Why Democracy Needs the Humanities, 2010O resultado? Em 2022, o PISA — a avaliação internacional de estudantes conduzida pela OCDE — mediu pela primeira vez a capacidade de pensamento criativo de jovens de 15 anos em 64 países. A média da OCDE foi 33 pontos em 60. O Brasil marcou 23. Ficamos atrás de Chile, Uruguai, Costa Rica. Atrás de todos os países da Europa avaliados. Atrás da Turquia. Atrás da Bulgária. E o dado mais perturbador não é o número absoluto — é o que ele representa. Não estamos medindo conhecimento decorado. Estamos medindo a capacidade de gerar ideias originais e avaliar soluções criativas para problemas reais. Exatamente o que o mercado de trabalho do século XXI mais valoriza. Exatamente o que nossas escolas menos incentivam.
A pesquisa da OCDE revelou algo que confirma o que qualquer professor brasileiro sabe intuitivamente: apenas metade dos estudantes acredita que a criatividade é algo que se pode desenvolver. A outra metade acha que é talento nato — ou você tem, ou não tem. Esse dado, sozinho, é uma sentença. Porque se o aluno não acredita que pode se tornar mais criativo, ele não tenta. E se a escola não cria espaço para tentar, ele nunca descobre que estava errado.
O Tempo de Ajuste que Ninguém Concedeu
Toda vez que uma tecnologia nova irrompe no mercado, existe um intervalo entre o momento em que ela aparece e o momento em que as pessoas aprendem a conviver com ela. Os economistas chamam isso de período de ajuste. Os engenheiros de software chamam de reskilling. Os filósofos chamam de crise. São nomes diferentes para o mesmo fenômeno: o mundo mudou e nós ainda não.
O Future of Jobs Report 2025, publicado pelo Fórum Econômico Mundial, estima que a disrupção tecnológica vai afetar 22% dos empregos globais até 2030. Isso significa 170 milhões de novas funções surgindo — e 92 milhões desaparecendo. O saldo líquido é positivo (78 milhões de empregos novos), mas o saldo humano é outra conta. Porque os 92 milhões de postos que desaparecem não são ocupados pelas mesmas pessoas que vão preencher os 170 milhões de postos novos. Há um abismo entre quem perde e quem ganha — e esse abismo tem nome: capacitação.
A lacuna de habilidades ameaça se transformar em um abismo. A IA se move em velocidade de dobra, ultrapassando os humanos, enquanto mudanças demográficas reduzem a oferta de profissionais qualificados.
— Jonas Prising, CEO do ManpowerGroup, Fórum Econômico Mundial, janeiro de 2025O relatório é claro: 39% das habilidades centrais dos trabalhadores vão mudar ou se tornar obsoletas até 2030. Quase quatro em cada dez competências que você usa hoje no trabalho terão validade vencida em cinco anos. E o mais revelador: 85% dos empregadores dizem que vão priorizar requalificação — mas 63% apontam a falta de habilidades como a maior barreira à transformação dos seus negócios. Todo mundo sabe que precisa treinar. Quase ninguém sabe como fazer isso na escala necessária.
Aqui a metáfora da dívida técnica atinge seu ponto mais agudo. No software, a dívida se acumula porque o time escolhe entregar rápido em vez de entregar certo. Na sociedade, a dívida se acumula porque o sistema educacional escolhe certificar em vez de capacitar. Formamos pessoas que têm diploma, mas não têm repertório para se adaptar. Que sabem responder provas, mas não sabem formular perguntas. Que decoraram o conteúdo de ontem e estão despreparadas para o problema de amanhã.
Dívida Educacional Técnica
Assim como no software, existe uma dívida educacional técnica: o custo acumulado de décadas de decisões pedagógicas que priorizaram velocidade de certificação sobre profundidade de formação. Cada geração formada num modelo que não ensina a pensar criativamente é um lançamento de juros compostos sobre o futuro. E como toda dívida técnica, ela não se paga sozinha — ela se agrava com o tempo, porque cada patch educacional novo (tablet na sala, plataforma EAD, app de revisão) é empilhado sobre uma fundação que ninguém redesenhou.
O paralelo é exato. No software, a empresa que acumula dívida técnica demais chega a um ponto em que 40% do orçamento de TI vai para manutenção de sistemas legados — não sobra nada para inovação. Na educação, o país que acumula dívida educacional técnica demais chega a um ponto em que a maioria do esforço pedagógico vai para remediar deficiências básicas — sobra pouco para ensinar a pensar, criar, questionar.
Um currículo sobrecarregado, falta de foco avaliativo em criatividade e insuficiência de formação e recursos para professores são os principais obstáculos à incorporação do pensamento criativo na educação.
— OCDE, PISA 2022 Creative Thinking Framework, 2024Reescrever a fundação exige coragem para parar de entregar features e olhar para dentro.
Cinco Refatorações que Precisamos Fazer
No desenvolvimento de software, existe um conceito chamado refatoração: reescrever o código existente sem mudar o que ele faz por fora, mas melhorando como ele funciona por dentro. O comportamento externo permanece idêntico; a qualidade interna melhora. É como reformar a estrutura de uma casa sem que os moradores precisem sair — eles continuam dormindo, cozinhando, vivendo, mas a fundação fica mais sólida, as paredes mais retas, o encanamento menos propenso a vazar.
Eu acredito que a sociedade precisa de refatorações — não de revoluções. Revoluções derrubam a casa. Refatorações a fortalecem. E as cinco mais urgentes, na minha visão, são estas:
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01Refatorar a avaliação: de memorização para criação
Enquanto o sistema escolar avaliar apenas a capacidade de reproduzir respostas corretas, ele vai premiar a obediência e punir a originalidade. A criatividade precisa de espaço para errar, iterar e melhorar — exatamente o que provas de múltipla escolha não permitem. Singapura, que lidera o PISA em pensamento criativo, adotou em 2004 a política “Ensine Menos, Aprenda Mais” — e levou duas décadas para colher os resultados.
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02Refatorar a formação docente: de transmissor para facilitador
O PISA 2022 mostrou que alunos cujos professores valorizam a criatividade e incentivam respostas originais têm desempenho significativamente melhor em pensamento criativo. Mas a maioria dos professores nunca foi treinada para isso — eles foram formados no mesmo sistema que precisam transformar. A refatoração começa nos cursos de licenciatura.
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03Refatorar o currículo: de disciplinas isoladas para problemas integrados
Problemas reais não respeitam fronteiras disciplinares. A crise climática não é “de biologia” nem “de geografia” — é de tudo ao mesmo tempo. A educação que compartimenta o saber em caixas de 50 minutos produz adultos que sabem muito sobre pedaços e quase nada sobre conexões. A OCDE chama isso de “split-screen thinking”: ensinar o conteúdo e o pensamento criativo simultaneamente, não em sequência.
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04Refatorar o reskilling: de evento para hábito
O modelo atual de requalificação profissional trata treinamento como um evento: um curso, um workshop, uma certificação. Os dados mostram que 91% dos profissionais de L&D consideram aprendizado contínuo essencial — mas só 21% das empresas acreditam que estão fazendo isso de forma eficaz. A requalificação precisa ser embutida no fluxo de trabalho diário, não confinada a um dia de treinamento por trimestre.
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05Refatorar a relação com a dívida: de vergonha para estratégia
No software, as melhores equipes não fingem que dívida técnica não existe — elas a medem, a priorizam e a pagam intencionalmente. A Accenture recomenda alocar 15% do orçamento de TI para remediar dívida técnica. A sociedade precisa de algo equivalente: um investimento contínuo e declarado em atualizar as fundações, em vez de apenas empilhar novas funcionalidades sobre bases que não sustentam mais nada.
Três pensadores que iluminam essa intersecção entre tecnologia e sociedade:
Ward Cunningham
Criador da metáfora da dívida técnica e do conceito de wiki. Pioneiro do movimento ágil e do pensamento sobre qualidade de código como investimento.
Martha Nussbaum
Filósofa de Chicago. Defensora das humanidades como fundamento da cidadania democrática e do pensamento crítico na educação.
Paulo Freire
Educador brasileiro. Criador da pedagogia crítica, que entende educação como prática de liberdade — não como transmissão de conteúdo.
Brasil: 23 pontos em pensamento criativo no PISA. Média OCDE: 33. Singapura: 41.
59 em cada 100 trabalhadores precisarão de requalificação até 2030.
O Código que Escrevemos nos Outros
A dívida técnica, no fundo, nunca foi sobre código. Ward Cunningham sabia disso — e admitiu depois que talvez devesse ter chamado de “oportunidade” em vez de “dívida”, porque o que importa não é o erro do passado, mas o espaço que se abre quando você resolve consertá-lo. Boas práticas de código produzem oportunidade. Oportunidade pode ser investida para alcançar objetivos maiores. É um ciclo virtuoso, não um ciclo de culpa.
A mesma lógica vale para a educação e para o reskilling. O objetivo não é culpar o sistema atual — que fez o que podia com o que tinha. O objetivo é reconhecer que o custo de manter as coisas como estão já ultrapassou o custo de mudá-las. No software, esse é o momento em que a empresa decide finalmente migrar do sistema legado. É doloroso, é caro, é arriscado. Mas a alternativa — ficar pagando juros compostos para sempre — é pior.
Eu penso muito numa frase que ouvi de um professor de ciência da computação: “todo software carrega a visão de mundo de quem o escreveu”. Isso é verdade. Os algoritmos que decidem o que você vê no feed, que avaliam seu crédito, que recomendam tratamentos médicos — todos carregam os vieses, as prioridades e os pontos cegos dos humanos que os criaram. E esses humanos foram formados num sistema educacional que priorizou a memorização sobre a criatividade, a obediência sobre a curiosidade, a resposta certa sobre a pergunta boa.
A criatividade é consistentemente apontada como uma das habilidades mais valorizadas por empregadores. Mas pesquisas da OCDE sugerem que a criatividade dos estudantes diminui à medida que eles avançam no sistema escolar.
— OCDE, Supporting Students to Think Creatively, 2023Eis a dívida que ninguém declarou: cada geração de profissionais formados sem pensamento crítico e criativo é uma camada de código frágil empilhada sobre a anterior. E quando o sistema inteiro precisa mudar — quando a IA generativa explode, quando o mercado de trabalho se reconfigura, quando 59 em cada 100 trabalhadores precisam de requalificação — nós descobrimos que a fundação não sustenta a mudança. Não por falta de inteligência. Por falta de fundação.
A empresa global média desperdiça mais de 370 milhões de dólares por ano com a incapacidade de modernizar seus sistemas legados. A analogia educacional é impagável — literalmente. Quantas décadas de potencial criativo foram desperdiçadas por um sistema que ensinou a obedecer quando deveria ter ensinado a pensar? Quanto custa, em PIB não gerado, em problemas não resolvidos, em invenções que nunca existiram, essa dívida silenciosa?
Não tenho a resposta. Mas sei que ela começa com uma pergunta que Ward Cunningham fez em 1992 e que nós — como sociedade — ainda não fizemos com a seriedade necessária: quanto estamos dispostos a parar de adicionar funcionalidades novas para consertar o que já deveria funcionar direito?
A dívida técnica se paga com refatoração. A dívida educacional se paga com coragem — a coragem de admitir que o sistema que nos formou não é o sistema que deveria formar quem vem depois.
O código mais difícil de reescrever é o que roda dentro de nós.
Mas todo sistema legado um dia encontra quem se recuse a apenas empilhar mais um patch.
E é nessa recusa — silenciosa, teimosa, necessária — que o futuro começa a ser escrito.
Referências
- CUNNINGHAM, Ward. The WyCash Portfolio Management System. OOPSLA ’92 Experience Report. ACM, 1992.
- LAKOFF, George; JOHNSON, Mark. Metaphors We Live By. University of Chicago Press, 1980.
- NUSSBAUM, Martha C. Not for Profit: Why Democracy Needs the Humanities. Princeton University Press, 2010.
- OCDE. PISA 2022 Results (Volume III): Creative Minds, Creative Schools. OECD Publishing, 2024.
- WORLD ECONOMIC FORUM. The Future of Jobs Report 2025. Genebra: WEF, 2025.
- CAST. Coding in the Red: The State of Global Technical Debt, 2025. Paris/New York: CAST Software, set. 2025.
- ACCENTURE. What Is Tech Debt? Digital Core Research Report. Accenture, 2024.
- PEGASYSTEMS; SAVANTA. Average Global Enterprise Wastes More Than $370 Million Every Year Through Technical Debt. Pega, out. 2025.
- FOWLER, Martin. Technical Debt. bliki. martinfowler.com, 2003 (atualizado 2019).
- FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 17ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
- McKINSEY GLOBAL INSTITUTE. The Upskilling Imperative: Required at Scale for the Future of Work. McKinsey & Company, mai. 2025.
- BERG, J.; VESTENA, C. L. B.; COSTA-LOBO, C. Creativity in Brazilian Education: Review of a Decade of Literature. Creative Education, v. 11, n. 3, p. 420–433, 2020.







