Porque às vezes a voz embarga, e só a palavra escrita consegue atravessar o ruído.
Matheus · Para minha mãe e Luís Felipe
Capítulo I
A Voz que Embarga
Minha mãe e Luís Felipe, escrevo porque, às vezes, a voz embarga ou se perde nos ruídos das nossas brigas, e eu preciso que vocês enxerguem o que as etiquetas de “improdutivo” ou “preguiçoso” escondem.
Eu reconheço o meu caos. Sei que a bebida é um labirinto onde me perco por dias, tentando silenciar uma mente que não para e um corpo que dói de formas que as palavras não alcançam. Peço desculpas pelas feridas que abri nesses momentos de fuga. O binge não é vício em prazer, é um grito de socorro mal endereçado.
Dias que a memória guarda inteiros.
Capítulo II
A Fiação em Curto
Viver com Esclerose Múltipla é como habitar uma casa onde a fiação elétrica entra em curto-circuito aleatoriamente. Eu quero correr, eu quero limpar, eu quero ser a engrenagem perfeita que essa casa exige, mas meu sistema trava. Onde vocês veem desordem, eu estou lutando para manter o mínimo de dignidade entre um vômito e uma perna que não firma.
A mesa onde cabe tudo: o amor e o silêncio.O riso que nenhuma briga apaga.
Capítulo III
Ser Raro não é ser Demente
Existe uma diferença abissal entre ser ignorante e ser condicionado pelo limite. Minha cabeça flui em um ritmo que não cabe na “profissão casa”. Enquanto vocês organizam o mundo de fora, eu tento organizar o deserto que ficou dentro de mim depois que perdi o otimismo.
O afeto é meu trabalho: Posso não conseguir manter a prateleira impecável, mas tudo o que faço é imbuído de um sentir que a pressa do dia a dia não permite.
O corpo é o limite, não a alma: Não sou maluco, nem demente. Sou um homem lidando com uma raridade biológica que me isola.
Afeto
O trabalho invisível
Ritmo
Diferente, não errado
Coragem
De pedir para ser visto
Os fragmentos que formam o inteiro.
Capítulo IV
O Pedido
Peço paciência para o meu tempo, que é diferente do relógio da parede. Peço perdão pelas vezes em que minha dor transbordou de forma errada. Mas, acima de tudo, peço que vejam o humano que habita aqui, para além das sequelas e dos erros.
O afeto que não precisa de palavras.O sorriso que sobrevive a tudo.