I · Origem
O Brasil que aprendeu a dever
Há uma narrativa confortável sobre o endividamento no Brasil: a de que o brasileiro gasta o que não tem, cede ao impulso, não resiste ao parcelamento. Ela contém um grão de verdade — e esconde uma tonelada de contexto. Porque quando quase metade da população adulta está negativada ao mesmo tempo, o problema deixa de ser individual e passa a ser sistêmico. Não é possível que oitenta e um milhões de pessoas tenham simplesmente “errado as contas”.
A história começa na virada dos anos 2000, quando a combinação de estabilidade pós-Plano Real, crescimento da renda e queda do desemprego abriu o mercado financeiro brasileiro a dezenas de milhões de novos consumidores. A bancarização foi real e necessária: populações historicamente excluídas do sistema formal passaram a ter acesso a conta, cartão e crédito pela primeira vez. Entre 2002 e 2014, o volume de crédito como proporção do PIB saltou de 24% para 54%. Era expansão, mas também exposição.
O problema não estava no acesso — estava nas condições. Enquanto países europeus ofereciam crédito a 8% ou 12% ao ano, o cartão rotativo brasileiro já operava acima de 200% ao ano naquele período. A oferta era sedutora; o custo, opaco. Embalado no conforto do “só doze vezes sem juros”, o consumidor brasileiro aprendeu a parcelar antes de aprender a calcular o Custo Efetivo Total. Esse desequilíbrio entre oferta e letramento financeiro seria a semente da crise que amadureceria nas décadas seguintes.
Quando oitenta e um milhões de pessoas estão negativadas ao mesmo tempo, o problema deixa de ser individual e passa a ser sistêmico.
Perspectiva editorial, com base em dados Serasa Experian, fev. 2026
A recessão de 2015–2016 foi o primeiro grande catalisador. O desemprego, que chegou a 13,7% em 2017, jogou no endividamento uma geração inteira de trabalhadores que perderam renda de forma abrupta e usaram o crédito para sustentar o padrão de vida por meses a fio — até o crédito se esgotar e a inadimplência se instalar. A pandemia de 2020 repetiu o roteiro com amplitude ainda maior: 39 milhões de trabalhadores informais sem renda e as linhas emergenciais do governo, ao mesmo tempo em que os bancos concediam moratórias que represavam dívidas para o futuro. Quando 2022 chegou, o futuro cobrou a conta.
Em 2023, o Serasa Experian começou a registrar 70,1 milhões de CPFs negativados. Em fevereiro de 2026, esse número atingia 81,7 milhões — 49,7% de toda a população adulta brasileira, o maior volume já registrado em uma série histórica que completa dez anos. Em uma década, o número cresceu 38%. Não é uma crise que chegou de repente: é uma construção lenta, tijolos de crédito barato e renda insuficiente, assentados um sobre o outro até a estrutura não aguentar mais.
81,7M
brasileiros negativados em fevereiro de 2026 (Serasa Experian)
445%
ao ano cobrados no cartão rotativo — entre os maiores juros do mundo (BACEN, 2025)
R$ 518bi
em dívidas vencidas acumuladas no país em dezembro de 2025 (Serasa)
II · Ascensão
O retrato de quem deve — e quanto
Os números agregados impressionam, mas é no detalhe que a crise revela sua textura humana. A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, conduzida mensalmente pela Confederação Nacional do Comércio, mostra que em dezembro de 2025 78,9% das famílias brasileiras tinham alguma dívida. Desse grupo, 30,5% estavam com parcelas em atraso — recorde histórico — e 12,6% declaravam-se incapazes de honrar qualquer pagamento, o que a lei chama de superendividamento em sentido estrito.
O cartão de crédito é o protagonista absoluto: aparece na lista de dívidas de 85,1% das famílias endividadas, contra 70,9% em 2010. O avanço de quatorze pontos percentuais em quinze anos não é coincidência — é o resultado da democratização do plástico sem a correspondente democratização da educação financeira. Atrás do cartão vêm os carnês (16,2%), o crédito pessoal (12,1%), o financiamento habitacional (9,6%), o financiamento de veículo (8,6%), o crédito consignado (5,8%) e o cheque especial (3,3%, menor patamar desde 2010, graças à regulação do Banco Central que criou teto de juros para essa modalidade).
Composição das dívidas por modalidade · CNC/PEIC, dezembro 2025
| Modalidade |
% de famílias endividadas |
Variação vs. 2010 |
| Cartão de crédito | 85,1% | +14,2 p.p. |
| Carnês | 16,2% | — |
| Crédito pessoal | 12,1% | — |
| Financiamento habitacional | 9,6% | — |
| Financiamento de veículo | 8,6% | — |
| Crédito consignado | 5,8% | — |
| Cheque especial | 3,3% | menor patamar da série |
O estoque de dívidas da Serasa revela ainda algo perturbador: 22,1% das dívidas vencidas são de contas básicas — água, luz e gás. Isso significa que uma parcela significativa dos inadimplentes brasileiros não está devendo porque comprou algo supérfluo: está devendo porque não conseguiu pagar a conta de luz do mês. O endividamento deixou de ser questão de consumo para se tornar questão de sobrevivência.
22% das dívidas vencidas no Brasil são de contas de água, luz e gás. O brasileiro médio não está financiando luxo — está financiando o básico.
Serasa Experian · Mapa da Inadimplência, 2025
O perfil demográfico dos negativados também mudou de forma significativa em dez anos. As mulheres tornaram-se, pela primeira vez, maioria dos inadimplentes — 50,5% do total, ou 40,4 milhões de CPFs. Pesquisa Serasa e Opinion Box de 2025 mostra que 34% das mulheres brasileiras são as únicas provedoras do lar (esse número sobe para 43% no Nordeste) e que 91% das chefes de família das classes D e E já estiveram ou estão negativadas. A Defensoria Pública de São Paulo, ao traçar o perfil típico de quem recorre ao serviço de superendividamento, encontra invariavelmente: mulher, menos de 35 anos, ensino médio incompleto, residente no Sul ou Sudeste.
O envelhecimento da inadimplência é a outra transformação silenciosa. A faixa de 60 anos ou mais saltou de 12,23% dos negativados em 2016 para 19,8% em 2026 — sete pontos percentuais a mais em uma década. Os idosos tornaram-se alvo preferencial da indústria do crédito consignado, que debita diretamente do benefício do INSS com taxa de juros reduzida mas com assédio intenso e, em muitos casos, com fraude aberta: a Operação Sem Desconto, deflagrada pela CGU e pela Polícia Federal em abril de 2025, revelou que associações e sindicatos descontaram sem autorização até R$ 6,3 bilhões de benefícios de 4,1 a 6 milhões de aposentados desde 2020.
Perfil dos inadimplentes por faixa etária · Serasa Experian, fevereiro 2026
| Faixa etária |
Participação 2016 |
Participação 2026 |
Variação |
| 18–29 anos | 19,4% | 16,8% | −2,6 p.p. |
| 30–39 anos | 28,7% | 26,5% | −2,2 p.p. |
| 40–49 anos | 24,6% | 22,9% | −1,7 p.p. |
| 50–59 anos | 15,1% | 14,0% | −1,1 p.p. |
| 60 anos ou mais | 12,2% | 19,8% | +7,6 p.p. |
A dimensão da renda fecha o quadro. Quarenta e oito por cento dos inadimplentes ganham até um salário mínimo; 78% ganham até dois. São brasileiros que contraem dívidas pequenas — 30,65% devem até R$ 500; 44,35% devem até R$ 1.000 — mas que, sob taxas de juros de 445% ao ano, veem essas dívidas dobrarem em menos de seis meses. Isso não é má gestão financeira: é aritmética impossível.
III · Encontro
Três forças que constroem a armadilha
Entre as causas do superendividamento, três se retroalimentam de maneira particularmente cruel. Compreendê-las separadamente é didático; o problema é que elas nunca agem sozinhas.
A primeira é a oferta predatória de crédito. O Nubank atingiu 100 milhões de clientes no Brasil em novembro de 2024 — 57% da população adulta. O Pix Parcelado e o modelo Buy Now Pay Later saltaram de 27% de aceitação no comércio eletrônico em janeiro de 2023 para 54% em maio de 2025, em um mercado estimado em R$ 205 bilhões anuais. O crédito chegou a quem nunca havia tido acesso — 45 milhões de brasileiros historicamente desbancarizados — e chegou fast, digital, sem burocracia, sem os antigos filtros de renda e histórico. A facilidade de acesso é real; o problema é que ela não veio acompanhada da educação sobre o custo real desse crédito.
A segunda força é a renda insuficiente e volátil. A renda domiciliar per capita brasileira chegou a R$ 2.069 em 2024, recorde histórico, e o índice de Gini atingiu o menor patamar já registrado. São avanços reais. Mas os 50% mais pobres ainda têm renda per capita de R$ 713 mensais — insuficientes para absorver qualquer imprevisto, especialmente em um cenário onde a inflação acumulada entre 2022 e 2024 superou 16% e onde alimentação e moradia consomem cerca de 40% do orçamento das famílias de baixa renda. O trabalhador informal — 39 milhões de brasileiros — não tem proteção contra demissão, não tem FGTS, não tem seguro-desemprego. Quando a renda para, o cartão entra.
O trabalhador informal não tem proteção contra demissão, não tem FGTS, não tem seguro-desemprego. Quando a renda para, o cartão entra.
Análise editorial a partir de dados IBGE/PNAD Contínua, 2025
A terceira força é o analfabetismo financeiro, e aqui o Brasil ocupa uma posição constrangedora. No levantamento global S&P Global FinLit Survey, apenas 35% dos brasileiros são considerados financeiramente alfabetizados — o país está na 67ª posição entre 143 nações. O Índice de Educação Financeira do Banco Central marca 35 em uma escala de 100. Sessenta e cinco por cento dos brasileiros não têm reserva para cobrir uma despesa inesperada equivalente à renda de um mês sem recorrer a empréstimo. Apenas 28% pouparam qualquer valor nos últimos doze meses — 14º pior índice do mundo.
Gatilhos do superendividamento · Serasa / Locomotiva Research, 2023–2024
| Gatilho |
Participação |
Perfil mais afetado |
| Desemprego / queda de renda | 22–29% | Trabalhadores informais, 30–49 anos |
| Doença própria ou familiar | 18% | Idosos, famílias com dependentes |
| Separação / divórcio | 14% | Mulheres chefes de família |
| Consumo acima do orçamento | 21% | Jovens de 18–29 anos |
| Crédito para pagar crédito | 25% | Todos os perfis, especialmente baixa renda |
A soma dessas três forças produz trajetórias típicas que os estudos de Idec, OAB e pesquisadores como a professora Claudia Lima Marques da UFRGS descrevem com precisão quase clínica. O caminho mais comum começa com um imprevisto — desemprego, doença, separação —, migra para o uso do rotativo do cartão “só por um mês” e desemboca, em questão de semanas, em um ciclo de empréstimos para pagar empréstimos que consome a renda disponível antes que qualquer coisa essencial seja paga. Quarenta e quatro por cento do crescimento da inadimplência vem de dívidas com mais de três anos de atraso: o sinal mais claro de que muitos devedores já desistiram de tentar.
C
Claudia Lima Marques
Professora titular da UFRGS e principal arquiteta da Lei do Superendividamento. Especialista em direito do consumidor e crédito responsável.
H
Herman Benjamin
Ministro do STJ e presidente da comissão que elaborou o anteprojeto da Lei 14.181/2021, após uma década de tramitação legislativa.
L
Leonardo Garcia
Jurista e professor de direito do consumidor. Voz crítica na análise das lacunas da Lei 14.181 e da decisão do STJ de junho de 2025.
IV · Processo
A lei, os programas e o caminho para sair
O Brasil não ficou de braços cruzados diante da crise. Nos últimos cinco anos, foram criados instrumentos legais e programas de renegociação que representam avanços reais — com limitações igualmente reais.
O marco legal mais importante é a Lei 14.181, promulgada em 1º de julho de 2021, conhecida como Lei do Superendividamento. Ela alterou o Código de Defesa do Consumidor para introduzir o conceito de “crédito responsável” no ordenamento jurídico brasileiro: os fornecedores passaram a ter obrigação de avaliar a capacidade de pagamento do consumidor antes de conceder crédito, de informar o Custo Efetivo Total de forma clara e de entregar cópia do contrato. Também ficou proibido o assédio a idosos, analfabetos, doentes e outros grupos hipervulneráveis.
O procedimento de repactuação funciona em duas fases. Na fase conciliatória, o juiz ou conciliador convoca audiência global com todos os credores simultaneamente — o que permite ao consumidor apresentar um único plano de pagamento de até cinco anos, preservando o chamado “mínimo existencial”. Na fase compulsória, o juiz pode impor o plano independentemente da concordância dos credores. A competência é da Justiça Estadual, e o Conselho Nacional de Justiça autorizou que audiências de repactuação ocorram também nos Procons, com homologação por centros de conciliação.
O que a lei protege — e o que ela não cobre
A lei protege dívidas de consumo de pessoas físicas de boa-fé: cartão, crédito pessoal, carnês, financiamento de veículo. Ficam fora do regime: dívidas com garantia real, financiamentos imobiliários, crédito rural, produtos de luxo e, por regulamentação via decreto, o crédito consignado — justamente uma das maiores fontes de superendividamento entre idosos. O “mínimo existencial” foi fixado pelo governo em R$ 600 mensais, valor abaixo da linha internacional de pobreza e que o STF discute em três ações diretas (ADPFs 1005, 1006 e 1097), com julgamento suspenso por pedido de vista em dezembro de 2025.
O maior programa de renegociação em massa da história brasileira foi o Desenrola Brasil, lançado em julho de 2023 e encerrado em maio de 2024. Voltado a pessoas com renda de até dois salários mínimos ou inscritas no CadÚnico (Faixa 1) e a consumidores com renda até R$ 20 mil mensais (Faixa 2), o programa registrou resultados expressivos: 15,06 milhões de pessoas beneficiadas, R$ 53,07 bilhões em dívidas renegociadas, descontos médios de 90% à vista e cerca de 10 milhões de registros desnegativados automaticamente em dívidas de até R$ 100.
O Desenrola Brasil beneficiou 15 milhões de pessoas e renegociou R$ 53 bilhões em dívidas — mas cerca de 80% dos beneficiados voltaram a ficar negativados nos meses seguintes.
Ministério da Fazenda / Serasa Experian, 2024
O problema é que o programa tratou o sintoma sem tocar na causa. Os juros do cartão rotativo seguiram em 445% ao ano depois do Desenrola. A Selic permaneceu em dois dígitos. E a reinadimplência foi alta: cerca de 80% dos consumidores que limparam o nome voltaram a ficar negativados, segundo monitoramento da Serasa. O total de inadimplentes passou de 71,4 milhões em julho de 2023 para 81,7 milhões em fevereiro de 2026 — ou seja, cresceu durante e após o programa. Em abril de 2026, o governo anunciava estudos para um Desenrola 2.0, com possível uso do FGTS e contrapartidas em educação financeira, ainda sem data de lançamento.
Para quem está com dívidas agora, o caminho legítimo passa por cinco etapas:
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01
Fazer o diagnóstico completo
O Registrato do Banco Central (portal Meu BC, com login Gov.br nível prata ou ouro) consolida todos os empréstimos, financiamentos, contas ativas e chaves Pix vinculadas ao CPF. É gratuito, oficial e o primeiro passo para saber exatamente o quanto se deve e a quem.
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02
Priorizar dívidas com garantia real
Financiamento de imóvel ou veículo com risco de perda do bem devem ser tratados primeiro. Dívidas de cartão e crédito pessoal têm menos urgência legal — mas cobram os juros mais altos.
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03
Negociar diretamente pelos canais oficiais
Serasa Limpa Nome, SPC Brasil, app ou site do credor e consumidor.gov.br oferecem as mesmas condições sem intermediários. Não há vantagem em pagar a uma empresa de renegociação o que se pode fazer gratuitamente.
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04
Buscar mediação extrajudicial gratuita
Procons estaduais e o Núcleo de Defesa do Consumidor das Defensorias Públicas oferecem mediação sem custo. Para quem tem múltiplas dívidas, a Defensoria pode solicitar audiência de repactuação global com todos os credores, nos termos da Lei 14.181/2021.
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05
Reconhecer golpes antes de cair neles
Empresas que prometem “limpar o nome em 24 horas”, cobram taxa antecipada ou entram em contato não solicitado via WhatsApp são quase sempre fraudulentas. O BACEN não possui representantes externos. A orientação é negociar apenas por canais identificáveis e verificáveis.
Comparativo de canais de renegociação · dados oficiais 2025
| Canal |
Custo |
Abrangência |
Ponto forte |
| Serasa Limpa Nome | Gratuito | 2.200+ empresas parceiras | Descontos de até 99% em feirões anuais |
| consumidor.gov.br | Gratuito | Nacional | Resolução em até 10 dias via Senacon |
| Procon estadual | Gratuito | Estadual / municipal | Fiscalização de juros abusivos |
| Defensoria Pública | Gratuito | Baixa renda | Repactuação global (Lei 14.181/2021) |
| CEJUSC / Tribunal | Gratuito | Nacional | Homologação judicial com força de sentença |
| Empresa de assessoria | Cobrado | Variável | Nenhum diferencial comprovado — risco de golpe |
V · Legado
O que os números estão pedindo
Há um dado que resume a dimensão estrutural da crise melhor do que qualquer outro: 42% dos brasileiros inadimplentes em 2026 já estavam inadimplentes em 2016. Em uma década, não saíram. Passaram pelo Desenrola e voltaram. Passaram pelos feirões do Serasa e voltaram. Não porque sejam irresponsáveis — mas porque a arquitetura do crédito brasileiro produz novos devedores no mesmo ritmo em que “limpa” os antigos.
O sistema funciona como uma esteira que anda na direção contrária: de um lado, programas de renegociação resolvem situações pontuais e devolvem pessoas ao sistema financeiro formal; do outro, juros de 445% ao ano e renda mediana insuficiente para absorver imprevistos garantem que essas mesmas pessoas, diante do próximo choque de renda, farão o mesmo caminho de volta para a inadimplência. Enquanto essa esteira não for desligada, os números continuarão batendo recordes independentemente de quantos Desenrolas forem lançados.
42% dos inadimplentes de 2026 já estavam negativados em 2016. Em dez anos, não saíram. Não porque sejam irresponsáveis — mas porque a arquitetura do sistema os mantém lá.
Serasa Experian · 10 Anos do Mapa da Inadimplência, 2026
As três variáveis que definirão o cenário nos próximos anos são conhecidas. A primeira é o julgamento das ADPFs no STF sobre o mínimo existencial: se os ministros confirmarem o voto do relator André Mendonça — de que os R$ 600 fixados por decreto são insuficientes e violam a dignidade humana — a Lei 14.181/2021 ganha dentes de verdade, obrigando credores a deixar nas mãos do devedor uma parcela da renda compatível com a vida, não com a sobrevivência mínima. A segunda é a efetivação do Desenrola 2.0 e se ele virá acompanhado de medidas estruturais — limite de juros, contrapartidas regulatórias, educação financeira integrada — ou se será apenas mais uma rodada de anestesia. A terceira é a consolidação jurisprudencial dos Procons e Defensorias em torno de um rito de repactuação que obrigue credores a negociar de fato, e não apenas a comparecer protocolarmente a audiências — o que a decisão do STJ de junho de 2025 (que dispensou os credores de apresentar contraproposta) tornou mais difícil.
O endividamento das famílias brasileiras é, em última análise, uma questão distributiva. Juros de cartão de 445% ao ano transferem renda de quem tem menos para quem tem mais, de forma sistemática, legal e silenciosa. Cada real pago em juros de rotativo é um real que não vai para alimentação, educação ou poupança. Em escala, isso explica muito sobre por que a desigualdade brasileira é tão resistente às políticas de distribuição de renda: o crédito caro desfaz, pela porta dos fundos, o que as políticas sociais constroem pela porta da frente.
O crédito caro desfaz, pela porta dos fundos, o que as políticas sociais constroem pela porta da frente.
Análise editorial a partir de dados IBGE/BACEN/CNC, 2025–2026
Resolver o superendividamento brasileiro não é tarefa de um programa, de uma lei ou de um feirão. É tarefa de uma escolha civilizatória: decidir que o crédito deve ser ferramenta de construção de vida, não mecanismo de captura de renda. Enquanto essa escolha não for feita com seriedade — nos juros, na regulação, na educação financeira e na proteção dos mais vulneráveis —, o número 81,7 milhões será apenas um piso, não um teto.
Toda dívida começa com uma esperança — a de que o futuro será melhor do que o presente.
O problema do Brasil não é que seus devedores tenham esperado demais. É que o sistema cobrou mais do que qualquer esperança razoável poderia pagar.
Oitenta e um milhões de CPFs não são estatística. São oitenta e um milhões de histórias esperando uma saída que a aritmética, sozinha, não consegue oferecer.
Referências
- SERASA EXPERIAN. Mapa da Inadimplência e Renegociação de Dívidas no Brasil. São Paulo: Serasa, fev. 2026. Disponível em: serasa.com.br/limpa-nome-online/blog/mapa-da-inadimplencia.
- CONFEDERAÇÃO NACIONAL DO COMÉRCIO. Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor — PEIC. Dezembro de 2025. Brasília: CNC, 2026.
- BANCO CENTRAL DO BRASIL. Nota de Crédito: Modalidades e Taxas de Juros. Brasília: BACEN, nov. 2025. Disponível em: bcb.gov.br.
- BRASIL. Lei nº 14.181, de 1º de julho de 2021. Atualiza a Lei nº 8.078 (Código de Defesa do Consumidor) para aperfeiçoar a disciplina do crédito ao consumidor e dispor sobre a prevenção e o tratamento do superendividamento. Brasília: Presidência da República, 2021.
- BRASIL. Ministério da Fazenda. Desenrola Brasil encerra com benefício a mais de 15 milhões de pessoas. Brasília: MF, maio 2024. Disponível em: gov.br/fazenda.
- BRASIL. Controladoria-Geral da União. Operação Sem Desconto: aposentados e pensionistas tiveram quase R$ 6,3 bi em descontos sem autorização. Brasília: CGU, abr. 2025. Disponível em: gov.br/cgu.
- IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua — PNAD Contínua 2024: Rendimento de todas as fontes. Rio de Janeiro: IBGE, 2025.
- MARQUES, Claudia Lima; LIMA, Clarissa Costa de; BERTONCELLO, Káren Rick Danilevicz. Prevenção e tratamento do superendividamento. Brasília: DPDC/SDE, 2010. (Caderno de Investigações Científicas, v. 1).
- IDEC — INSTITUTO BRASILEIRO DE DEFESA DO CONSUMIDOR. Lei do Superendividamento completa dois anos sem ter o que comemorar. São Paulo: Idec, jul. 2023. Disponível em: idec.org.br.
- S&P GLOBAL. FinLit Survey: Global Financial Literacy Data. Nova York: S&P, 2023. Disponível em: gflec.org.
- STJ — SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. Falta de contraproposta em audiência não gera sanções ao credor. Brasília: STJ, 23 jun. 2025. Disponível em: stj.jus.br.
- FEBRABAN — FEDERAÇÃO BRASILEIRA DE BANCOS. Mutirão Nacional de Renegociação de Dívidas Bancárias: resultados consolidados. São Paulo: FEBRABAN, mar. 2025. Disponível em: febraban.org.br.