O corpo humano opera dentro de uma faixa estreita de temperatura. Quando o ambiente oscila demais, a conta chega no coração, no sono e no humor — muito antes de chegar no termômetro da emergência.
O Termostato Interno
Trinta e sete graus mantidos a qualquer custo — e o custo é pago em batimentos, suor e noites mal dormidas.
A homeotermia é a conquista mais cara do corpo humano: um quarto de toda a energia gasta em repouso serve para manter a temperatura estável.
Capítulo I · Origem
A Faixa Estreita
Seu corpo é uma geladeira ao contrário. Uma geladeira gasta energia para ficar mais fria que a cozinha; você gasta energia para ficar mais quente que a rua — e, quando a rua esquenta demais, para ficar mais frio que ela. O aparelho que faz esse controle é o hipotálamo, um punhado de neurônios do tamanho de uma amêndoa, na base do cérebro. Ele funciona exatamente como o termostato da geladeira: tem um número de referência gravado e liga os motores sempre que a leitura foge dele.
O número é cerca de 37 °C. Não é um capricho evolutivo. As enzimas — as pequenas ferramentas químicas que quebram alimento, montam proteína e conduzem impulso nervoso — só têm o formato correto dentro dessa faixa. Alguns graus acima, elas começam a se desenrolar como um clipe de papel entortado. Alguns graus abaixo, ficam lentas demais para dar conta do serviço. A vida acontece num corredor térmico de largura ridícula.
A constância do meio interno é a condição da vida livre e independente.
Claude Bernard, fisiologista francês, 1878
Bernard escreveu isso no século XIX e criou, sem saber, o conceito que hoje chamamos de homeostase. A ideia é simples: o organismo não se adapta ao mundo mudando junto com ele. Ele resiste ao mundo, mantendo dentro de si um clima próprio, artificial, teimoso. O preço dessa teimosia é energia. Cerca de um quarto do que você gasta em repouso vai para essa contabilidade invisível.
Quando o ambiente é estável, o gasto é baixo e previsível. Quando o ambiente oscila muito — 34 °C às três da tarde, 19 °C às cinco da manhã, frente fria em pleno janeiro, calor de 38 °C em pleno julho —, o termostato passa a trabalhar em turnos dobrados. É essa carga extra, repetida e crônica, que a literatura médica chama de estresse térmico. E ela não age só no corpo.
Capítulo II · Ascensão
O Clima Que Não Para Quieto
Duas coisas mudaram ao mesmo tempo, e é fácil confundi-las. A primeira é a média: o planeta ficou mais quente. 2024 foi o ano mais quente já registrado, com temperatura média global 1,55 °C acima dos níveis pré-industriais. A segunda é a variabilidade: os extremos ficaram mais frequentes, mais intensos e — crucialmente — mais próximos uns dos outros.
A diferença importa. O corpo humano é razoavelmente bom em se adaptar a um clima constante, mesmo que quente. Quem mora no Ceará não passa mal com 32 °C; quem mora em Curitiba passa. A aclimatação leva de uma a duas semanas e envolve mudanças reais: você começa a suar mais cedo, sua mais diluído (perde menos sal), aumenta o volume de plasma no sangue. O que o corpo não consegue fazer é se aclimatar a um alvo que muda toda semana.
3.600mortes anuais ligadas ao calor no Brasil entre 2012 e 2021 — 4,4 vezes mais que na década de 1990
44 hde sono perdidas por pessoa, por ano, por causa de noites quentes demais
62,3 °Csensação térmica recorde no Rio de Janeiro em 17 de março de 2024
Na América Latina, a mortalidade relacionada ao calor dobrou desde os anos 1990, saltando de 6.400 para cerca de 13 mil óbitos por ano. No Brasil, apenas em 2024, 6,7 bilhões de horas de trabalho foram perdidas por causa das altas temperaturas, principalmente na agricultura e na construção — um prejuízo estimado em R$ 91 bilhões, perto de 1% do PIB.
A destruição de vidas e de meios de subsistência vai continuar crescendo enquanto a dependência dos combustíveis fósseis não for superada.
Síntese de Marina Romanello, diretora executiva do Lancet Countdown, University College London
Mas o número que melhor descreve o problema da oscilação não é o da onda de calor. É a chamada amplitude térmica diária: a diferença entre a máxima e a mínima do mesmo dia. Uma metanálise de 38 estudos publicada em 2025 encontrou aumento de cerca de 0,7% na mortalidade cardiovascular para cada grau adicional de amplitude, e de cerca de 1,0% na mortalidade respiratória. O efeito aparece com atraso curto — dois a três dias após a variação — e é mais forte em idosos.
Média
O planeta esquentou. É o dado que todos citam — e o menos perigoso dos dois.
A média sobe devagar e permite aclimatação parcial.
Amplitude
O planeta ficou instável. É o dado que quase ninguém cita — e o que o corpo sente primeiro.
A variação sobe em degraus e não dá tempo de ajuste.
Capítulo III · Encontro
A Conta Fisiológica
Pense no seu sangue como a água de um sistema de refrigeração. Quando faz calor, o corpo abre os canos que vão para a pele — vasodilatação — para levar calor de dentro para fora, onde o suor vai evaporá-lo. O problema é aritmético: você tem uma quantidade fixa de sangue. Se boa parte dele foi desviada para a pele, sobra menos para o cérebro, para os rins e para os músculos. O coração compensa batendo mais rápido. Em um adulto saudável, isso é apenas cansaço. Em alguém com doença coronariana, é uma prova de esforço involuntária, sem supervisão médica.
Ao mesmo tempo, o suor drena água e sódio. A sede só aparece quando você já perdeu de 1% a 2% do peso corporal em líquido — o alarme toca depois do incêndio começar. Com menos volume, o sangue fica mais viscoso e os rins, que precisam de fluxo generoso para filtrar, entram em economia. É por isso que ondas de calor produzem picos de internação por lesão renal aguda, e não apenas por insolação.
O frio faz o caminho inverso, e não é mais gentil. A queda brusca de temperatura provoca vasoconstrição: os canos da periferia se fecham para conservar calor no centro. O mesmo volume de sangue passa a circular por um sistema mais estreito, e a pressão arterial sobe. Some-se a isso o aumento da viscosidade sanguínea no frio e você tem a explicação de por que infartos e AVCs se concentram nos meses e nos dias frios.
As políticas de saúde pública se concentram quase exclusivamente nas ondas de calor — e precisam ser ampliadas para toda a faixa térmica.
Síntese de Antonio Gasparrini, London School of Hygiene & Tropical Medicine
O estudo que Gasparrini liderou analisou 74,2 milhões de mortes em 384 localidades de 13 países, incluindo o Brasil. O resultado desmontou uma intuição: 7,71% de toda a mortalidade foi atribuída a temperaturas fora do ideal, e a maior parte disso — 7,29% — veio do frio, não do calor. Mais importante ainda: temperaturas moderadamente desconfortáveis mataram muito mais que os extremos espetaculares. Os dias de temperatura extrema responderam por menos de 1% do total.
A leitura correta desse dado não é "frio mata mais que calor, relaxe no verão". É outra: o dano do estresse térmico é somatório, silencioso e distribuído ao longo do ano — não um evento pontual que aparece no noticiário. A onda de calor é a manchete. A carga crônica é a doença.
Onde o corpo perde a briga
O suor só resfria quando evapora, e o ar úmido não aceita mais vapor. A temperatura de bulbo úmido mede exatamente esse limite. Durante anos assumiu-se que 35 °C de bulbo úmido seria a fronteira da sobrevivência humana. Um experimento da Penn State com adultos jovens e saudáveis, publicado em 2022, mediu o limite real: em ambientes quentes e úmidos (36–40 °C), a perda de compensação começou em média a 30,5 °C de bulbo úmido — e, em ar quente e seco, entre 25 °C e 28 °C. O limiar teórico estava alto demais. A margem é menor do que se acreditava.
A Noite Que Não Esfria
O corpo precisa perder cerca de um grau para adormecer. Quando o quarto não deixa, o sono não começa.
As mínimas noturnas sobem mais rápido que as máximas diurnas — e o sono é a primeira função a quebrar.
Capítulo IV · Processo
A Mente Sob Carga Térmica
Dormir não é desligar. É executar uma manobra fisiológica precisa: para iniciar o sono, o corpo precisa baixar a temperatura central em cerca de 1 °C, enviando calor para as extremidades. Mãos e pés ficam quentinhos justamente porque o núcleo está esfriando. Se o quarto está quente demais, esse despejo de calor não acontece e o sono simplesmente não engata.
Um estudo publicado na One Earth em 2022 mediu isso em escala planetária: mais de 7 milhões de registros de sono, de 47.628 pessoas em 68 países, cruzados com dados meteorológicos locais. Uma única noite acima de 30 °C reduz o sono em cerca de 15 minutos por pessoa. Somando o ano, o custo estimado no início deste século já era de 44 horas de sono perdidas por pessoa e 11 noites adicionais de sono insuficiente. A projeção para 2099 é de 50 a 58 horas anuais.
Três detalhes desse estudo merecem atenção. Idosos perdem o dobro de sono por grau de aquecimento. Mulheres são afetadas cerca de 25% mais que homens. E — o achado mais incômodo — não houve recuperação: nas duas semanas seguintes a um pico de calor, as pessoas não repuseram o sono perdido. Quem vive em regiões já quentes perde mais por grau, o que sugere que a adaptação tem um teto baixo.
Os seres humanos são notavelmente adaptáveis, mas existem limites físicos reais para a adaptação.
Kelton Minor, autor principal do estudo publicado na One Earth (2022)
Sono ruim é a ponte entre o calor e a cabeça — mas não é a ponte inteira. Pesquisadores de Harvard aproveitaram uma onda de calor em Boston, em 2016, para comparar 44 universitários saudáveis: metade morava em dormitórios com ar-condicionado (média de 21,4 °C), metade em prédios antigos sem climatização (média de 26,3 °C). Durante a onda de calor, o grupo sem ar-condicionado teve 13,4% de aumento no tempo de reação no teste de Stroop e 13,3% de queda no desempenho em cálculo mental. Cinco medidas de função cognitiva pioraram, incluindo memória de trabalho.
Repare no número que quase passa despercebido: 26,3 °C. Não é uma temperatura de emergência. É a sala de aula de uma escola pública sem ar-condicionado numa tarde de outubro. A curva do teste de Stroop tem formato de U, com desempenho ótimo entre 22 °C e 23 °C — abaixo e acima disso, o cérebro fica mais lento.
A magnitude do efeito foi realmente impressionante.
José Guillermo Cedeño Laurent, autor principal do estudo, Rutgers School of Public Health
E há o humor. Um estudo de caso-cruzado publicado no JAMA Psychiatry em 2022 analisou quase 3,5 milhões de atendimentos de emergência por causas psiquiátricas nos Estados Unidos, entre 2010 e 2019. Nos dias de calor extremo, as visitas por qualquer condição de saúde mental subiram 8% em relação aos dias de temperatura ideal. O aumento apareceu em várias categorias distintas — transtornos de ansiedade e estresse, transtornos de humor, uso de substâncias, autolesão, esquizofrenia. Não é um efeito específico de um diagnóstico; é um estressor externo que empurra todo mundo um degrau para baixo.
As mudanças climáticas não são um problema teórico do futuro. Já afetam nossa saúde e nossas comunidades hoje.
Síntese de Amruta Nori-Sarma, Boston University School of Public Health
O mecanismo provável combina três frentes: privação de sono, ativação do eixo do estresse (mais cortisol, mais adrenalina) e alteração na sinalização serotoninérgica, que é sensível à temperatura. Some a isso o fato de que vários medicamentos psiquiátricos — lítio, antipsicóticos, anticolinérgicos — atrapalham a própria capacidade de regular temperatura, e você entende por que pacientes em tratamento estão entre os mais vulneráveis nas ondas de calor.
01
Reduza o degrau, não só a temperatura
Sair de um ambiente a 18 °C para a rua a 35 °C impõe um choque de 17 graus ao sistema circulatório. Ajustar o ar-condicionado para 24–25 °C reduz o degrau e ainda corta consumo de energia. O objetivo é diminuir a amplitude, não vencer o calor.
02
Proteja a noite antes de proteger o dia
O quarto é a variável de maior retorno. Ventilação cruzada ao anoitecer, cortina fechada durante a tarde, banho morno (não gelado) antes de deitar — o banho morno dilata os vasos da pele e ajuda o corpo a despejar calor, exatamente o movimento que o sono exige.
03
Beba antes da sede
A sede é um alarme atrasado: dispara quando já houve perda de 1% a 2% do peso em líquido. Em dias quentes, água em intervalos regulares funciona melhor que grandes volumes esporádicos. Sudorese intensa e prolongada também custa sódio, não só água.
04
Desloque o esforço para as bordas do dia
Trabalho pesado, treino e deslocamentos longos entre 10h e 16h somam calor metabólico ao calor ambiental. Mover essas atividades para o começo da manhã ou o fim da tarde é a adaptação mais barata que existe.
05
Reconheça os sinais precoces
Cãibras, náusea, tontura, pele fria e pegajosa e queda de rendimento indicam exaustão pelo calor — o estágio ainda reversível. Confusão mental, fala arrastada, pele quente e seca e ausência de suor indicam insolação: emergência médica, ligue 192.
Exaustão
O corpo ainda está lutando: sua, esfria, avisa. Estágio reversível — se você parar.
Cãibra, náusea, pele pegajosa: sombra, líquido e repouso.
Insolação
O corpo desistiu de lutar: não sua mais, e o cérebro começa a falhar. Emergência.
Pele quente e seca, confusão mental: resfriamento imediato e 192.
Capítulo V · Legado
Desigualdade Térmica
Temperatura parece o mais democrático dos fenômenos. Não é. Dentro de uma mesma cidade, no mesmo horário, a diferença entre um bairro arborizado e uma periferia de laje exposta chega facilmente a vários graus — o fenômeno conhecido como ilha de calor urbana. No dia do recorde de 62,3 °C de sensação térmica no Rio, o Jardim Botânico, bairro residencial arborizado, registrava 57,7 °C. Cinco graus a menos, produzidos por árvores.
A vulnerabilidade se acumula em camadas. Quem trabalha ao ar livre não escolhe o horário. Quem mora em casa de telha de fibrocimento sem forro não escolhe a temperatura do quarto. Quem não tem dinheiro para a conta de luz não liga o ventilador. No estudo do sono, a perda entre idosos de áreas de baixa renda foi três vezes maior que entre idosos de áreas de alta renda. O clima é o mesmo; a exposição, não.
B
Claude Bernard
Fisiologista francês do século XIX. Formulou a ideia de meio interno constante — base do conceito de homeostase.
G
Antonio Gasparrini
Epidemiologista da London School of Hygiene & Tropical Medicine. Quantificou a mortalidade atribuível à temperatura em 13 países.
M
Kelton Minor
Cientista de dados sociais. Mediu, em escala global, a erosão do sono humano provocada pelo aquecimento noturno.
A saída não é individual, embora tenha um lado individual. Arborização urbana, telhados frios, isolamento térmico em habitação popular, sistemas de alerta precoce, pausas obrigatórias em jornadas ao ar livre e climatização de escolas e postos de saúde são intervenções de engenharia e de política pública — e são elas que decidem quem atravessa a próxima onda de calor. Uma árvore madura na calçada faz mais pela sua pressão arterial do que qualquer conselho de bem-estar.
O aumento da temperatura média da região saltou de 23,3 °C para 23,8 °C na última década, com impacto concreto sobre crianças e idosos.
Síntese de Stella Hartinger, diretora do Lancet Countdown América Latina
Fica um último ponto, e é o mais difícil de aceitar. O corpo humano não tem um plano B térmico. Não existe órgão de reserva para regulação de temperatura, não existe treino que amplie a faixa de 37 °C, não existe suplemento que substitua a evaporação do suor. Tudo o que temos é aclimatação parcial, lenta e com teto. A engenharia de que dependemos daqui para frente não é biológica. É arquitetônica, urbana e política.
Enquanto isso, o hipotálamo continua fazendo o que sempre fez: pequenas correções invisíveis, milhares de vezes por dia, tentando manter o mundo de dentro imune ao mundo de fora. Ele não se cansa de tentar. Mas o custo dessa tentativa — em batimentos, em horas de sono, em atenção que não volta — é a conta que ninguém coloca no boleto.
O termômetro da rua mede o ar.
O corpo mede o esforço de não virar ar.
E cobra em sono, em batimento, em memória curta.
Referências
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