Um ensaio sobre a audição e seus dois monstros: o ouvido que escuta de menos e o ouvido que escuta demais. Explicado sem jargão, com o rigor que o assunto merece.
O Botão de Volume
Todo ouvido tem um botão de volume invisível. Às vezes ele emperra lá embaixo. Às vezes, lá em cima.
A audição não é um microfone: é um microfone ligado a um técnico de som que mexe nos botões o tempo todo — o cérebro.Capítulo I · Origem
O ouvido nunca dorme
Os olhos têm pálpebras. Os ouvidos, não. Quando você fecha os olhos, o mundo some; quando tenta fechar os ouvidos, ele continua lá, chegando por baixo da porta. Por isso nossos antepassados sobreviveram: o estalo de um galho no meio da noite acordava quem dormia antes que o predador chegasse. A audição nasceu como alarme, não como música.
Para entender o que dá errado, primeiro é preciso entender o caminho que o som percorre. Pense numa pedra jogada num lago. O som é isso: ondas de ar empurrando ondas de ar. Elas entram pela orelha (o funil), batem no tímpano (um tambor do tamanho de uma unha), que balança três ossinhos minúsculos — martelo, bigorna e estribo, os menores ossos do corpo. Esses ossinhos funcionam como um macaco hidráulico: pegam uma vibração fraca do ar e a transformam numa vibração forte o bastante para mexer o líquido lá dentro.
Lá dentro mora a cóclea, um caracol cheio de líquido. Desenrolada, ela parece o teclado de um piano: numa ponta ficam as teclas dos sons agudos, na outra, as dos graves. Sobre esse teclado vivem milhares de células ciliadas — pequenos tufos parecidos com grama. Quando a onda passa, a grama se inclina, e cada inclinação vira um sinal elétrico que corre pelo nervo auditivo até o cérebro.
Nossa capacidade de ouvir é preciosa.
— Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, no lançamento do Relatório Mundial sobre Audição (2021)
Aqui está o detalhe que muda tudo: nos seres humanos, as células ciliadas não crescem de volta. Grama de jardim, pisada, se levanta. Essa grama, quando é arrancada por barulho alto, por remédios tóxicos para o ouvido ou pelo tempo, deixa um buraco permanente no teclado. É desses buracos — e do jeito como o cérebro reage a eles — que nascem os dois monstros deste ensaio.
Capítulo II · Ascensão
O primeiro monstro: escutar de menos
Hipoacusia é o nome técnico para perda auditiva: ouvir menos do que deveria. "Hipo" quer dizer abaixo, "acusia" quer dizer audição. Simples assim. O que não é simples é perceber que ela chegou, porque a hipoacusia raramente bate na porta — ela entra pela janela, devagar, durante anos.
Existem dois tipos principais, e a diferença entre eles é a diferença entre um cano entupido e uma lâmpada queimada:
A perda condutiva é o cano entupido. O som não consegue chegar até a cóclea: cera acumulada, otite, tímpano furado, ossinhos travados. Muitas vezes tem conserto — desentope-se o cano, e a água volta a correr.
A perda neurossensorial é a lâmpada queimada. O som chega, mas as células ciliadas ou o nervo já não conseguem transformá-lo em sinal. É a perda causada pela idade, pelo barulho e por algumas doenças. Não se troca a lâmpada; usa-se aparelho auditivo ou implante coclear para contornar o defeito.
Devo viver como um exilado.
— Ludwig van Beethoven, Testamento de Heiligenstadt (1802), carta em que descreve a surdez progressiva que o afastava das pessoas
E aqui mora a maior armadilha: perda auditiva não é só "volume baixo". É volume torto. Como as teclas agudas costumam quebrar primeiro, a pessoa ouve as vogais (graves e fortes) mas perde as consoantes (agudas e fracas): o "s", o "f", o "t". Ela sabe que alguém falou — só não sabe o quê. É como ler um texto em que alguém apagou metade das letras. Por isso o clássico "fala mais alto" não resolve: gritar aumenta as vogais, que já estavam boas, e não devolve as consoantes que faltavam.
1,5 bide pessoas vivem com algum grau de perda auditiva no mundo (OMS)
430 mitêm perda incapacitante e precisam de reabilitação (OMS)
2,5 bidevem conviver com perda auditiva em 2050 — cerca de 1 em cada 4 pessoas (OMS)
O custo não é apenas de ouvido. Quem escuta mal passa a evitar festas, reuniões, conversas no telefone. O isolamento vem em silêncio. A Comissão Lancet sobre demência apontou a perda auditiva na meia-idade como um dos maiores fatores de risco modificáveis para demência — ou seja, algo sobre o qual dá para fazer alguma coisa.
A perda auditiva não tratada aparece como um dos fatores de risco modificáveis de maior peso para a demência.
— Síntese de Livingston et al., Comissão Lancet sobre Demência, The Lancet (2020)
Cano Entupido
Perda condutiva: o som não passa. Cera, otite, tímpano perfurado. Muitas vezes, reversível.
O problema está na estrada até a cóclea.
Lâmpada Queimada
Perda neurossensorial: o som chega, mas o sensor já não acende. Idade, ruído, doenças.
O problema está no próprio sensor ou no nervo.
Capítulo III · Encontro
O segundo monstro: escutar demais
Imagine o barulho de uma sacola plástica amassando. Para a maioria, é nada. Para quem tem hiperacusia, pode soar como vidro estilhaçando dentro da cabeça. Talheres batendo num prato, uma criança rindo, a descarga do banheiro: sons comuns, de volume comum, que chegam doendo. "Hiper" quer dizer acima. É o ouvido que escuta além da conta.
A hiperacusia não é frescura, e não é "ouvido biônico". A pessoa não ouve sons mais baixos que os outros — ela sente sons normais como se fossem altos demais. Estudos populacionais estimam que algo entre 8% e 15% dos adultos relatam algum grau de sensibilidade aumentada ao som, e ela anda de mãos dadas com o zumbido.
Na hiperacusia, sons do dia a dia, que não incomodam a maioria das pessoas, passam a ser vividos como intoleráveis ou dolorosos.
— Síntese de Baguley, D. M., "Hyperacusis", Journal of the Royal Society of Medicine (2003)
Agora vem o encontro que dá título a este capítulo — e que parece mágica até ser explicado. Muitas vezes os dois monstros são o mesmo monstro. A mesma pessoa que perdeu parte da audição pode, ao mesmo tempo, achar certos sons insuportáveis. Como pode alguém ouvir menos e sofrer com o barulho?
Pense no técnico de som de um show. Se o microfone começa a falhar e o sinal chega fraco, o que ele faz? Gira o botão de ganho para cima. Funciona — até que alguém bate palma perto do microfone e a caixa de som explode num estouro. O cérebro faz exatamente isso. Quando a cóclea passa a mandar menos sinal, os centros auditivos aumentam o próprio "ganho central" para compensar. O ganho extra ajuda a ouvir os sons fracos, mas faz os sons fortes estourarem. Esse mecanismo é uma das principais explicações para o zumbido e para a hiperacusia.
Quando a entrada da cóclea diminui, o sistema auditivo central aumenta o próprio ganho — e esse excesso de amplificação pode se manifestar como zumbido ou hiperacusia.
— Síntese de Auerbach, Rodrigues e Salvi, "Central gain control in tinnitus and hyperacusis", Frontiers in Neurology (2014)
Há ainda um capítulo mais traiçoeiro. Pesquisas com animais mostraram que um único barulho forte pode destruir parte das conexões entre as células ciliadas e o nervo, mesmo quando o exame de audição volta ao normal dias depois. É a chamada perda auditiva oculta: o audiograma diz "tudo bem", mas as ligações estão rompidas. A pessoa passa no teste e, mesmo assim, não entende a conversa num restaurante barulhento.
O fato de o limiar auditivo voltar ao normal depois de um trauma sonoro não significa que o ouvido saiu ileso.
— Síntese de Kujawa e Liberman, "Adding insult to injury", The Journal of Neuroscience (2009)
B
Ludwig van Beethoven
Compositor. Perdeu a audição progressivamente e compôs a Nona Sinfonia praticamente surdo.
J
Pawel Jastreboff
Neurocientista. Propôs o modelo neurofisiológico do zumbido e a terapia de retreinamento (TRT).
K
Sharon Kujawa
Audiologista. Coautora dos estudos que revelaram a perda auditiva oculta.
Capítulo IV · Processo
O que fazer, em cinco passos
A boa notícia é que nenhum dos dois monstros precisa ser enfrentado no escuro. Existe um caminho, e ele começa por uma coisa que quase ninguém faz: medir.
01
Perceba os sinais
Pedir para repetirem, aumentar a TV além dos outros, cansar em conversas de grupo, zumbido. Ou o contrário: sons comuns que machucam, vontade de fugir de lugares cheios.
02
Faça uma audiometria
É o exame que desenha o "mapa do teclado": quais teclas tocam e quais falharam. Procure um otorrinolaringologista ou fonoaudiólogo. No SUS, o caminho começa pela Unidade Básica de Saúde.
03
Trate a perda, não só o volume
Aparelhos auditivos modernos amplificam frequências específicas, não tudo de uma vez. Para perdas profundas, existe o implante coclear. O SUS oferece ambos por meio da Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência.
04
Na hiperacusia, não se esconda do som
Usar protetor auricular o tempo todo parece lógico, mas ensina o cérebro a aumentar ainda mais o ganho. O tratamento envolve reexposição gradual a sons suaves, terapia sonora e, quando há sofrimento, terapia cognitivo-comportamental.
05
Proteja o que ainda funciona
Fone em no máximo 60% do volume, pausas em ambientes barulhentos, protetor em shows e obras. Cada célula ciliada preservada é uma tecla que continua tocando.
A cada 3 dB a mais, metade do tempo seguro
O decibel não é uma régua comum: é uma escada que dobra de energia a cada 3 degraus. Por isso o critério do NIOSH (instituto americano de saúde ocupacional) fixa 85 dB por 8 horas como limite de exposição — e a 88 dB o tempo seguro cai para 4 horas; a 91 dB, para 2; a 100 dB, um show ou uma serra elétrica, para cerca de 15 minutos. Volume não soma: ele multiplica.
O zumbido e a hiperacusia ganham força quando o sistema nervoso passa a associar o som a ameaça; o tratamento busca desfazer essa associação.
— Síntese de Jastreboff e Jastreboff, "Tinnitus Retraining Therapy", Journal of the American Academy of Audiology (2000)
Hipoacusia
Um rádio com teclas faltando: o som chega, mas chega com buracos.
Ouvir menos: a perda que entra devagar.
Hiperacusia
Um amplificador com o ganho no máximo: qualquer palma vira estouro.
Ouvir demais: o cérebro compensando além da conta.
O Técnico de Som
O cérebro não é vítima da audição. Ele é o técnico que gira os botões — e pode reaprender a girá-los.
Plasticidade: a mesma capacidade que cria o problema é a que permite o tratamento.Capítulo V · Legado
Ouvir é estar com os outros
Helen Keller, surda e cega desde a infância, escreveu em 1910 que a surdez lhe parecia uma desgraça mais profunda do que a cegueira, porque a privava do som da voz humana — aquilo que traz a linguagem, põe os pensamentos em movimento e nos mantém na companhia das pessoas. Mais de um século depois, a frase continua sendo a melhor definição do que está em jogo.
A surdez nos separa das pessoas; perder a voz humana é perder a companhia intelectual dos outros.
— Síntese de carta de Helen Keller ao otologista James Kerr Love, 1910
A audição não é um luxo dos sentidos. Ela é a cola invisível das relações: a piada no almoço de família, o "tá tudo bem?" ao telefone, o nome chamado na fila do posto. Quando ela some, some junto um pedaço da vida social. Quando ela dói, a pessoa foge do mundo do mesmo jeito. Os dois monstros terminam no mesmo lugar: a solidão.
No Brasil, há ferramentas para impedir isso. O teste da orelhinha é obrigatório e gratuito em recém-nascidos desde 2010. A Libras é reconhecida por lei como meio legal de comunicação desde 2002. E o SUS mantém, desde 2004, uma política nacional de atenção à saúde auditiva. O problema raramente é a falta de caminho: é a demora em admitir que o caminho é necessário.
No fim, o recado cabe numa linha: ninguém tem vergonha de usar óculos — e ninguém deveria ter vergonha de cuidar do ouvido. O mundo tem volume. Cuidar da audição é garantir que ele continue chegando na medida certa.
O ouvido não tem pálpebra: vigia até no sono.
Quando falta som, o cérebro grita; quando sobra, ele se encolhe.
Entre o silêncio e o estrondo, mora a voz de quem a gente ama.
BAGULEY, D. M. Hyperacusis. Journal of the Royal Society of Medicine, v. 96, n. 12, p. 582-585, 2003. DOI: 10.1177/014107680309601203.
AUERBACH, B. D.; RODRIGUES, P. V.; SALVI, R. J. Central gain control in tinnitus and hyperacusis. Frontiers in Neurology, v. 5, art. 206, 2014. DOI: 10.3389/fneur.2014.00206.
KUJAWA, S. G.; LIBERMAN, M. C. Adding insult to injury: cochlear nerve degeneration after "temporary" noise-induced hearing loss. The Journal of Neuroscience, v. 29, n. 45, p. 14077-14085, 2009. DOI: 10.1523/JNEUROSCI.2845-09.2009.
JASTREBOFF, P. J.; JASTREBOFF, M. M. Tinnitus Retraining Therapy (TRT) as a method for treatment of tinnitus and hyperacusis patients. Journal of the American Academy of Audiology, v. 11, n. 3, p. 162-177, 2000.
LIVINGSTON, G. et al. Dementia prevention, intervention, and care: 2020 report of the Lancet Commission. The Lancet, v. 396, n. 10248, p. 413-446, 2020. DOI: 10.1016/S0140-6736(20)30367-6.
TYLER, R. S. et al. A review of hyperacusis and future directions: part I. Definitions and manifestations. American Journal of Audiology, v. 23, n. 4, p. 402-419, 2014. DOI: 10.1044/2014_AJA-14-0010.
NATIONAL INSTITUTE FOR OCCUPATIONAL SAFETY AND HEALTH. Criteria for a recommended standard: occupational noise exposure. Cincinnati: NIOSH, 1998. (Publicação n. 98-126).
BRASIL. Lei n. 12.303, de 2 de agosto de 2010. Dispõe sobre a obrigatoriedade de realização do exame denominado Emissões Otoacústicas Evocadas. Diário Oficial da União, Brasília, 2010.
BRASIL. Lei n. 10.436, de 24 de abril de 2002. Dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais – Libras. Diário Oficial da União, Brasília, 2002.
BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS n. 2.073, de 28 de setembro de 2004. Institui a Política Nacional de Atenção à Saúde Auditiva. Diário Oficial da União, Brasília, 2004.